sábado, janeiro 03, 2009

"Devemos abrir os olhos para orar’ - Entrevista com Jürgen Moltmann


Do alto de seus 82 anos de vida, o escritor, pastor e professor Jürgen Moltmann concedeu uma entrevista a CRISTIANISMO HOJE durante esta sua segunda – e, provavelmente, última – estada no país. Ele falou aos participantes de um congresso de teologia e lançou o livroTestamento teológico para a América Latina.

CRISTIANISMO HOJE – O senhor diz que esta sua viagem ao Brasil é a apresentação de seu “testamento teológico” para a América Latina. Qual seria a principal herança de sua obra? 

JüRGEN MOLTMANN – O debate sobre a esperança. Precisamos de fé, esperança e amor; mas destaco que é necessário aplicar a esperança não somente na eternidade, mas também exercitá-la para que cause efeitos nos dias de hoje. A maioria dos cristãos está aguardando o céu, e não uma nova Terra, de onde brote justiça.

Essa é sua proposta a partir do livro Teologia da Esperança: uma abordagem da esperança que fuja ao sentimento de resignação. Então, ela é uma força capaz de transformar o mundo? 
Exatamente. Nos tempos em que vivemos, presenciamos milagres e sinais, certamente não feitos por teólogos, mas por Deus. Acompanhamos o fim do 
appartheid na África do Sul e muitas outras revoluções democráticas que deixaram para trás formas de ditadura política e militar. Agora, estamos acompanhando a queda do capitalismo, tendo a oportunidade para viver em um mundo mais livre e justo. A maioria dos crentes pensa que espiritualidade é orar; porém, no Novo Testamento, aprendemos que é preciso orar e vigiar. Precisamos de uma espiritualidade dotada de sentidos – ou seja, em uma forma bem figurativa, ao invés de fechar os olhos, temos de abri-los para orar. Uma Igreja desconectada do cotidiano não tem futuro, só passado.

O senhor acha que a crise atual é a derrocada do capitalismo, assim como o colapso do socialismo no fim dos anos 1980? 
Bem, não estou satisfeito com esse capitalismo. Espero que consigamos pôr em prática um capitalismo mais social, ou seja, um capitalismo em que o Estado regule de forma mais efetiva a economia. Há um bom tempo, a Alemanha vem tentando fazer isso: desenvolver uma economia social e ecológica, para que o mercado seja para o ser humano e o ser humano não seja sacrificado pelo mercado.

Isso tudo está relacionado à Teologia Política, ou Teologia Pública, que o senhor inaugurou e sempre destacou?
Sim. Isso inclui refletir o aspecto público e a justiça no Reino de Deus. A teologia pública é a política pensada teologicamente e a teologia na abordagem política; por outro lado, também é a cultura num aspecto teológico e a teologia sob o aspecto cultural. Ou seja, a teologia dialoga com a Igreja e a Igreja dialoga com a teologia. Porém, o futuro da Igreja e da teologia é o Reino de Deus, e isso tem de ser o centro de tudo. Estamos numa globalização sem globo, ou seja, a Terra não tem voz nem vez nesse processo. Precisamos de uma nova política da Terra, uma nova economia da Terra, isto é, uma nova ligação com o organismo vivo que a Terra representa. 

Logo, a atuação do teólogo vai muito além da Igreja... 
Claro que sim! Eu, por exemplo, já fui convidado para ser teólogo em uma faculdade de medicina.

O senhor enfatiza muito a questão de um suposto sofrimento de Deus. Qual é o valor da cruz e da morte de Cristo para Deus nessa linha de pensamento?
Deus sofre para estar próximo de todos os que sofrem por solidariedade e amor. Cristo deixou tudo para procurar aqueles que foram deixados por todos. É a nova forma de uma cristologia de solidariedade – e, como a maioria das pessoas são vítimas e não opressores, precisamos de uma cristologia que pronuncie claramente que Cristo está ao lado das vítimas e que Deus fará justiça.

Paulo Freire, famoso educador brasileiro, dizia que “ninguém liberta ninguém; ninguém se liberta sozinho. Os homens se libertam em comunhão”. Esta frase, refeita de acordo com a sua teologia, talvez ficasse algo assim: “Ninguém liberta ninguém; ninguém se liberta sozinho. O homem se liberta na comunhão cristã que experimenta Deus no outro”. É nisso que o senhor acredita?
Isso me lembra Dostoiévski, que dizia que “o ser humano deve se libertar por conta própria”.  Passei pela experiência de ser um prisioneiro de guerra por três longos anos e fui liberto por Cristo. Não tive condição de libertar-me a mim mesmo. Paulo Freire tem uma posição humanista. Eu sou um teólogo cristão, apesar de contra a minha própria vontade, pois queria estudar Física e Matemática. Mas eu respeito os humanistas que querem se libertar por conta própria.

Então é possível crer em Deus após Auschwitz?
Sem dúvida. O texto 
O Deus crucificado é minha resposta a Auschwitz e ao horror que vivi na guerra. A minha pergunta é: em quem se deve crer depois de Auschwitz, senão em Deus? 

A Teologia da Libertação teve muita força aqui na América Latina, mas o senhor foi um dos poucos teólogos europeus a dialogar com essa teologia. Enfrentou muitas reações por isso? 
A maioria dos colegas não abraçou a Teologia da Libertação simplesmente porque eram ocupados e preocupados demais com suas teologias denominacionais e confessionais. Não lhes sobrava tempo para dialogar com o mundo, com as teologias ecumênicas e tudo o mais que acontecia ao redor. A resposta mais infame que já escutei sobre isso foi algo como “a teologia feminista é para a mulher, e a teologia negra é para os negros”. Eles não aceitavam o desafio que o outro pode trazer para o diálogo, aprofundando a sua própria teologia.

O que dizer acerca do fundamentalismo?
Os fundamentalistas nas igrejas protestantes deveriam ler e estudar a Bíblia e tentar entender o que temos de viver. Os bispos do Opus Dei deveriam ler os textos do Concílio Vaticano II. Eles estão esquecendo daquele legado, e isso é uma vergonha! E também é uma vergonha que os protestantes estejam lendo a Bíblia como se fosse o Corão. Deus se tornou em Cristo não um livro, mas sim, um ser humano. Por outro lado, os fundamentalistas também são seres humanos e precisam ser acolhidos, assim como as crianças, que não podem crescer sem o amor e respeito dos seus próprios pais. Eu não aconselho falar com fundamentalistas sobre o fundamentalismo, mas sobre experiências de vida e de como eles administraram os sofrimentos, desafios etc. 

O senhor foi colega de docência do teólogo alemão Joseph Ratzinger, hoje o papa Bento XVI. Conte sobre essa experiência.
Ratzinger passou por uma experiência traumática em 1968, época da revolução estudantil. Na época, ele passou por um medo apocalíptico, com uma idéia fixa no diabo – destaco que ele escreveu isso em sua biografia, portanto não se trata de difamação. E desde então, ele tenta combater o marxismo ateísta. Só que esse marximo não existe mais na Europa. Na sua última encíclica, a da Esperança, ele gastou três páginas para matar o marxismo. E eu lhe escrevi uma carta dizendo: “Você matou um cadáver”. É por isso que Bento XVI persegue tanto os teólogos da libertação, porque, segundo sua concepção, isso se trata de marxismo. Gente como Jon Sobrinho e Leonardo Boff não são marxistas, isso é uma besteira! 

E o que o senhor pensa sobre o papado?
Não o considero uma instituição evangélica.

Quais os seus livros prediletos? 
A Bíblia, especialmente o Antigo Testamento; O princípio da esperança, de Ernst Bloch; e A dogmática da Igreja, de Karl Barth. Mas este último tem cerca de 8 mil páginas... [
risos].

A despeito de todos os adjetivos que lhe devotam, como o senhor gostaria de ser lembrado?  
Sou apenas um simples cristão que busca entender sua fé. Nada além disso.


Por Daniel Machado in:

http://www.cristianismohoje.com.br/artigo.php?sessao=Entrevista&sessaoid=205&artigoid=37121

sexta-feira, janeiro 02, 2009

o ser e o tempo...


 "Habitamos nos ontens e sempre sonhamos com os amanhãs e, desse modo, prendemo-nos às tortuosos correntes do tempo e aos fantasmas de coisas na verdade inexistentes” 

(Ken  Wilber)

apud Roger F. Hurding in: A árvore da cura: modelos de Aconselhamento e de Psicoterapia, Sao Paulo, Vida Nova, 1995, 200

quinta-feira, janeiro 01, 2009

Jürgen Moltmann - Dr. da Esperança

Jürgen Moltmann (com o diploma) recebeu o título de Doutor Honoris Causa da Universidade Metodista de São Paulo

Um dos teólogos europeus mais profícuos e inovadores da atualidade visitou o Brasil em novembro. Figura das mais representativas da teologia protestante contemporânea, autor europeu mais lido nos seminários brasileiros e pai da chamada Teologia da Esperança, o alemão Jürgen Moltmann costuma ter seu nome precedido por muitos superlativos, sobretudo por aqueles que conhecem sua extensa obra. Caso de Levy Bastos, professor da Faculdade de Teologia da Universidade Metodista de São Paulo (Umesp), que recebeu Moltmann e lhe concedeu o título de Doutor Honoris Causa: “Trata-se de um estudioso que vem marcando gerações inteiras com suas idéias”, destaca.

Do alto de seus 82 anos de vida, o escritor, pastor e professor Jürgen Moltmann concedeu uma entrevista a CRISTIANISMO HOJE durante esta sua segunda – e, provavelmente, última – estada no país. Ele falou aos participantes de um congresso de teologia e lançou o livro Testamento teológico para a América Latina. Com um jeito naturalmente singelo e discurso cadenciado, Moltmann falou por quase uma hora e mostrou porque tem tamanha credibilidade. Boa parte de sua construção teológica tem por base a experiência pessoal, como o período de três anos em que foi prisioneiro de guerra, entre os anos de 1945 e 1948. Ex-integrante da Força Aérea Alemã, ele foi capturado pelas forças aliadas e mantido preso na Bélgica e na Inglaterra. “Foi quando clamei: ‘Meu Deus, onde estás?’. Desde então, fui perseguido pela pergunta básica acerca do porquê de estar vivo e de qual o sentido de minha existência”, lembra.

De volta à Alemanha, Moltmann foi estudar teologia para obter respostas. Em 1964, lançou Teologia da esperança, livro que o projetaria no cenário teológico mundial e se tornaria sua obra-prima. A obra defende uma esperança que deve ir além do sentimento de resignação que projeta uma existência melhor somente na vida eterna, mas preconiza uma luta para transformar o mundo atual num lugar mais humano e justo. “Isso rompeu o paradigma tradicional da teologia européia da época”, salienta Levy Bastos.

Partido pelos pobres –
De fato, Teologia da esperança superou o pensamento de Ernst Bloch (autor de O princípio da esperança). A meta da missão cristã pregada por Moltmann não se limita simplesmente à ênfase na salvação individual, pessoal, mas à realização da esperança da justiça, da socialização de humanidade e da paz do mundo. Esse pensamento ganhou novos contornos em 1972, com O Deus crucificado, livro no qual Moltmann elabora uma teologia da cruz, baseada na premissa de que “um Deus incapaz de sofrer é também incapaz de amar”. Para o teólogo alemão, tal sofrimento não é imposto de fora – visto que Deus é imutável –, mas sim um sofrimento de amor, livre, de um Senhor que sofre diante de tragédias como (novamente por influência de sua vivência na Segunda Guerra) Auschwitz e o extermínio dos judeus.

Com base nesse pensamento, Moltmann rebate a grande pergunta de Emanuel Lévinas – “Como falar de Deus depois de Auschwitz?” – com a seguinte provocação: “De quê, então, é para falar depois de Auschwitz, senão de Deus”? Segundo ele, como as pessoas, em sua maioria, são vítimas e não opressoras, é necessário vivenciar uma cristologia que pronuncie claramente que Jesus está ao lado das vítimas, e que Deus fará justiça. Já em A Igreja no poder do Espírito

Numa linha de pensamento vanguardista para sua época, o teólogo preconizava uma Igreja ecumênica, que quebrasse as barreiras entre as denominações e também na política. Moltmann, aliás, foi um dos principais inspiradores da Teologia da Libertação, movimento que ganhou força, inclusive no Brasil, nos anos 1960 e 70, pregando uma Igreja que tomasse partido pelos pobres e humilhados deste mundo. Sua identificação com os mais humildes pode ser percebida quando fala de si mesmo: “Sou apenas um simples cristão que busca entender sua fé. Nada além disso”. (1975), são exploradas, com viés fortemente ecumênico, as implicações eclesiásticas dessa teologia. “A Igreja deve estar aberta a Deus, aos homens e ao futuro, tanto de Deus quanto dos homens”, escreveu Moltmann. “Isso pede da Igreja não uma simples adaptação às rápidas mudanças sociais, mas uma renovação interior pelo Espírito de Cristo”.

Por Daniel Machado - Publicado no sítio:

http://www.cristianismohoje.com.br/retrancas/Doutor%20da%20esperan%E7a/37116


sexta-feira, dezembro 26, 2008

Por que 25 de dezembro?

O mês e o dia do nascimento de Cristo têm sido disputados através dos séculos.

É difícil imaginar Maria e José marchando para Belém em meio a nada mais que, como Christina Roseti memoravelmente descreveu, “o desolador meio-inverno” cercado de “neve sobre neve sobre neve”. Para nós, o Natal e dezembro são inseparáveis. Porém nos três primeiros séculos do cristianismo, o Natal não era em dezembro – ou em lugar algum do calendário.

Quando comemorado, o nascimento de Cristo era geralmente junto com a Epifania (06 de janeiro), umas das primeiras festas estabelecidas pela Igreja. Alguns de seus líderes até mesmo se opunham à idéia da celebração do nascimento de Cristo. Orígenes (c. 185 – 254 d.C.) pregava que seria errado honrar a Cristo da mesma maneira que Faraó e Herodes foram honrados. Aniversários eram para deuses pagãos.

Nem todos os contemporâneos de Orígenes concordavam que o aniversário de Cristo não deveria ser comemorado, e alguns começaram a especular sobre a data (registros reais foram aparentemente perdidos). Clemente de Alexandria (século 150 - 215) defendia 20 de maio mas notou que outros sugeriam 18 de abril, 19 de abril e 28 de maio. Hipólito (170 – 236 d.C.) propunha 02 de janeiro. Dezessete de novembro, 20 de novembro e 25 de março também tinham defensores. Um tratado latino escrito por volta de 243 d.C fixou 21 de março, pois acreditava-se ser a data na qual Deus criou o sol. Policarpo (c. 69 – 155 d.C.) seguiu a mesma linha de raciocínio para concluir que, tanto o nascimento quanto o batismo de Cristo aconteceram, muito provavelmente, numa quarta-feira, porque o sol foi criado no quarto dia.

A escolha final de 25 de dezembro, feita talvez por volta do ano 273, reflete uma convergência das preocupações de Orígenes sobre os deuses pagãos e a identificação pela igreja do filho de Deus com o sol celeste. Vinte e cinco de dezembro já hospedava dois outros eventos relativos: natalis solis invicti (o “nascimento do sol invicto” romano) e o aniversário de Mitra, o “Sol da Justiça” iraniano, cujo culto era popular entre os soldados romanos. O solstício de inverno, outra celebração ao sol, ocorria apenas alguns dias antes. Vendo que os pagãos já estavam exaltando deuses com alguns paralelos à verdadeira divindade, os líderes da igreja decidiram tomar a data e introduzir uma nova festa. 

Os cristãos ocidentais celebraram o primeiro Natal em 25 de dezembro de 336, após o imperador Constantino declarar o cristianismo como a religião favorita do império. As igrejas orientais, no entanto, mantiveram 6 de janeiro como a data do nascimento de Cristo e de seu batismo. A maioria dos orientais finalmente adotou 25 de dezembro, celebrando o nascimento de Cristo numa data mais cedo e o batismo mais tarde, mas a igreja Armênia celebra seu nascimento em 6 de janeiro. Casualmente, a igreja ocidental celebra a Epifania em 6 de janeiro, mas como sendo a data da chegada dos magos e não como a data do batismo de Cristo.

Outra complicação foi adicionada no século XVI quando o papa Gregório elaborou um novo calendário, o qual foi adotado de forma desigual. Os ortodoxos orientais e alguns protestantes mantiveram o calendário Juliano, que celebrava o natal 13 dias após os seus pares gregorianos. A maior parte – mas não todos – dos cristãos do mundo, agora concorda com o calendário gregoriano e celebra a data de 25 de dezembro.

As origens pagãs da data do Natal, assim como as origens pagãs para muitos costumes do Natal (entrega de presentes e a festa romana em homenagem a Saturno; plantas verdes, luzes e caridade do ano novo romano; árvores de natal e várias comidas de festas germânicas) sempre alimentaram argumentos contra a festa. “É apenas paganismo embrulhado com uma reverência cristã”, argumentam os críticos. Mas enquanto a reverência ao mundanismo deve ser uma preocupação para os cristãos, a igreja tem, em geral, visto os esforços para a reformulação da cultura – incluindo as festas – de forma positiva. Como afirmou um teólogo em 320, “Nós esperamos por este dia santo, não como os pagãos, pelo nascimento do sol, mas por quem o fez”. 


Elesha Coffman é editora associada de Christian History (História Cristã)

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