quarta-feira, novembro 29, 2006

A COMUNIDADE DOS IRMÃOS

A COMUNIDADE DOS IRMÃOS

Uma coisa que num instante impressiona o leitor do Novo Testamento é a natureza comunal da fé cristã. Os pronomes sociais — nós, eles, nos, lhes, os — encontram-se por toda parte. O ideal de Deus é um companheirismo de fé, uma comunidade cristã. Ele nunca teve a intenção de que a salvação fosse recebida e fruída pelo indivíduo, isolado da companhia maior dos crentes.
Ë verdade que para cada um tem de haver um encontro pessoal com Deus, e muitas vezes esse encontro tem lugar na solidão e no silêncio do retiro. Nesse momento sagrado, tem de haver somente Deus e a alma individual. A misteriosa operação de Deus na graça regeneradora em Sua obra posterior ministrando a unção do Espírito, são transações tão altamente pessoais que nem a terça parte dos beneficiados pode saber ou compreender o que se passa.
Há outras experiências profundas e totalmente internas que não podem ser partilhadas com nenhum outro: Jacó em Betel e Peníel, Moisés junto à sarça ardente, Cristo no jardim, João na ilha de Patmos, são exemplos bíblicos, e as biografias cristãs revelam muitos mais. Uma comunidade de crentes compõe-se necessariamente de pessoas, cada uma das quais teve um encontro com Deus, numa experiência individual. Não importa quão numerosa a família, cada filho tem de nascer individualmente. Mesmo os gêmeos e trigêmeos nascem um por vez. Assim na igreja local. Cada membro tem de nascer individualmente do Espírito.
Não escapará ao leitor dotado de discernimento que, embora cada filho nasça separado do restante, nasce numa família, e que, depois do nascimento, deve viver em comunhão com os restantes da casa. E o homem que vem a Cristo na solidão do arrependimento e da fé pessoais, nasce também no seio de uma família. A igreja é chamada casa de Deus, e é o lugar ideal para a criação de jovens cristãos. Justamente como uma criança não crescerá e não será um adulto normal se for forçada a viver sozinha, assim o cristão que se retira da comunhão doutros cristãos, sofrerá como resultado grande prejuízo espiritual. Nunca tal pessoa terá esperança de desenvolver-se normalmente. Exigirá muito de si e não o bastante de outrem; e isto não é bom.
Deus nos criou de tal forma que temos necessidade uns dos outros. Podemos e devemos ir para o nosso quarto e orar a nosso Pai celeste em secreto, mas, terminada a oração, devemos voltar ao nosso povo. Ë o que nos cabe.
Viver dentro da família não significa que temos que aprovar tudo que se faz ali. Os profetas de Israel muitas vezes foram compelidos a repreender e admoestar o seu povo, mas nunca saíram do seio do judaísmo. Mesmo Cristo todo sábado ia adorar com os demais. Os reformadores e os avivalistas dos tempos pós-bíblicos, invariavelmente viviam unidos a seu povo. Os mais solitários e mais austeros deles tinham o seu grupo de almas afins em que achavam o auxílio e o consolo que os seus doridos corações necessitavam. Seu exemplo não tem a autoridade da verdade revelada, mas nos dá uma norma que faremos bem em seguir.
Ninguém é bastante sábio para poder viver sozinho, nem bastante bom, nem forte. Deus nos fez em grande medida -dependentes uns dos outros. Dos nossos irmãos podemos aprender a fazer coisas, e às vezes também podemos aprender a não fazê-las. O melhor cantor deve ter um instrutor, se quiser evitar que seus defeitos fiquem crônicos. O prega¬dor que só se ouve a si próprio pregar, logo aceitará até as suas piores idiossincrasias como sinais indicadores de excelência. Necessitamos ouvir outros para podermos ver o que corrigir em nós. Isso também é verdade quanto às coisas morais e espirituais dentro do círculo da família. Um cristão fraco e faltoso pode, sem o saber, fazer-nos evitar o seu modo de vida, e todo santo de vida pura e frutuosa do círculo da nossa comunidade é um aguilhão que nos espicaça tocando-nos adiante para uma vida mais perfeita.
Depois de Deus, precisamos uns dos outros. Somos ovelhas e é da nossa natureza viver com o rebanho. E ainda podemos lembrar muito bem que, se por um momento perdemos de vista o Pastor divino, só temos de ir aonde está o Seu rebanho para encontrá-lo de novo, O Pastor sempre está com o Seu rebanho.

A. W. TOZER

sexta-feira, novembro 10, 2006

Crer e observar

Crer e observar
“Não confiaram nele, nem lhe obedeceram...”
(Deuteronômio 9.23).

O hino 439 dos Salmos e Hinos tem o seguinte refrão: “Crer e observar/ tudo quanto ordenar/ o fiel obedece/ ao que Cristo mandar”. Esta é a versão para o português, feita pelo Rev. Salomão Luís Ginsburg, do hino originalmente escrito em inglês “trust and obey” (confiar e obedecer).
Este é um dos muitos hinos que trago na memória! Cresci ouvindo minha mãe cantarolar este e outros hinos durante as lides domésticas. Muitas vezes sou surpreendido cantarolando ou apenas assoviando alguns destes hinos que fazem parte da minha história de fé.
O hino “crer e observar” em particular, traz-nos uma explanação simples e clara para a vida cristã. A expressão “confiar e obedecer” foi usada em uma reunião de testemunhos, logo depois de uma cruzada evangelística realizada pelo evangelista Dwight Moody, em Brockton, Massachusetts.
Um jovem levantou-se para dar seu testemunho, e foi logo deixando claro que conhecia muito pouco das doutrinas cristãs. Ele então terminou seu testemunho com esta pérola: “eu não sei muito ainda – mas decidi confiar, e decidi obedecer”.
Daniel Towner, que estava naquela reunião, ouvindo aquele testemunho, foi inspirado a escrever a letra do hino e, mais tarde, a apresentou a John Sammis, que trabalhou na melodia.
O verso de Deuteronômio no início dessa meditação é uma exortação direta e firme do Senhor, através de Moisés, aos filhos de Israel. Ele diz: “Mas vocês se rebelaram contra a ordem do Senhor, o seu Deus. Não confiaram nele, nem lhe obedeceram. Vocês têm sido rebeldes contra o Senhor desde que os conheço”.
A falha em confiar e obedecer está na raiz de todo comportamento pecaminoso, assim como a prática de confiar e obedecer está na raiz de toda vida de santidade.
Que hoje possamos, todos nós, renovar o nosso propósito de confiar e obedecer (crer e observar) em Jesus e na Sua Palavra!
Que o Senhor nos abençoe!

Rev. Ézio Lima

À Porta

À Porta

O garoto tropeçou no patamar e a porta bateu.

Foi um castigo.

Por um instante pensou no que acontecera, e não sendo capaz de aceitá-lo, atirou-se raivoso contra a porta impassível.



Socou-a, esmurrou-a, batendo os pés e urrando.

Mas na porta, de cara de pau, nem uma fibra se mexeu.

O guri descobriu o buraco da fechadura, olho irônico daquela triste porta.

Curvando-se, porém, viu que o olho estava fechado.



Então, desesperado, assentou-se e chorou.

Espiava-o sorrindo, e pensava, Senhor, que eu me esgoto assim muitas vezes frente a portas cerradas.



Quero justificar, provar, persuadir.

E falo, e desfraldo argumentos,

Bato grandes pancadas para atingir a imaginação ou a sensibilidade dos outros,

Mas, cortês ou violentamente, mandaram-me embora, e gasto minhas forças porque sou orgulhoso.

Fazei-me, Senhor, respeitoso e paciente,

Alguém que ama e ora em silêncio,

Assentado à soleira enquanto espera que lhe abram a porta.

terça-feira, outubro 31, 2006

A REFORMA PROTESTANTE - II

A REFORMA PROTESTANTE

Nesta terça-feira, dia 31/10, celebramos os 489 da Reforma Protestante. No dia 31 de Outubro de 1517 Martinho Lutero desencadeou a reforma com as suas 95 teses. Não obstante a tendência natural da pós-modernidade de considerar que o passado nada tem a nos ensinar, nós não descuidamos do ensino da Palavra de Deus que nos exorta: “Não removas os marcos antigos que puseram teus pais”. (Provérbios 22.28). Num tempo marcado por relativismos e subjetivismos, faz-se necessário voltar aos marcos antigos a fim de não corrermos o risco de pisar em solo estranho!
A tradição Reformada sempre professou que “a igreja porque é reformada deve sempre se reformar”; isto, contudo, não significa “jogar no lixo” a tradição que herdamos daqueles que viveram com fidelidade a Palavra de Deus e pagaram o preço a fim que o Evangelho chegasse até nós. A reforma constante pela qual a igreja deve passar não inclui a mudança ou alteração dos fundamentos da fé cristã. A verdade que impactou o mundo no século XVI continua sendo verdade para nós hoje! A verdade não é relativa, pois se for relativa não é verdade de fato.
Abaixo transcrevo parte da “Declaração de Cambridge”, um resumo daquilo que denominamos “Os Cinco Solas da Reforma Protestante”:
Sola Scriptura (Somente as Escrituras)
Reafirmamos a Escritura inerrante como fonte única de revelação divina escrita, única para constranger a consciência. A Bíblia sozinha ensina tudo o que é necessário para nossa salvação do pecado, e é o padrão pelo qual todo comportamento cristão deve ser avaliado.
Negamos que qualquer credo, concílio ou indivíduo possa constranger a consciência de um crente, que o Espírito Santo fale independentemente de, ou contrariando, o que está exposto na Bíblia, ou que a experiência pessoal possa ser veículo de revelação.
Solus Christus (Somente Cristo)
Reafirmamos que nossa salvação é realizada unicamente pela obra mediatória do Cristo histórico. Sua vida sem pecado e sua expiação por si só são suficientes para nossa justificação e reconciliação com o Pai.
Negamos que o evangelho esteja sendo pregado se a obra substitutiva de Cristo não estiver sendo declarada e a fé em Cristo e sua obra não estiver sendo invocada.
Sola Gratia (Somente a Graça)
Reafirmamos que na salvação somos resgatados da ira de Deus unicamente pela sua graça. A obra sobrenatural do Espírito Santo é que nos leva a Cristo, soltando-nos de nossa servidão ao pecado e erguendo-nos da morte espiritual à vida espiritual.
Negamos que a salvação seja em qualquer sentido obra humana. Os métodos, técnicas ou estratégias humanas por si só não podem realizar essa transformação. A fé não é produzida pela nossa natureza não-regenerada.
Sola Fide (Somente a Fé)
Reafirmamos que a justificação é somente pela graça somente por intermédio da fé somente por causa de Cristo. Na justificação a retidão de Cristo nos é imputada como o único meio possível de satisfazer a perfeita justiça de Deus.
Negamos que a justificação se baseie em qualquer mérito que em nós possa ser achado, ou com base numa infusão da justiça de Cristo em nós; ou que uma instituição que reivindique ser igreja mas negue ou condene sola fide possa ser reconhecida como igreja legítima.
Soli Deo Gloria (Só a Deus toda Glória)
Reafirmamos que, como a salvação é de Deus e realizada por Deus, ela é para a glória de Deus e devemos glorificá-lo sempre. Devemos viver nossa vida inteira perante a face de Deus, sob a autoridade de Deus, e para sua glória somente.
Negamos que possamos apropriadamente glorificar a Deus se nosso culto for confundido com entretenimento, se negligenciarmos ou a Lei ou o Evangelho em nossa pregação, ou se permitirmos que o afeiçoamento próprio, a auto-estima e a auto-realização se tornem opções alternativas ao evangelho”. (Fonte: Declaração de Cambridge)
Que neste mês da Reforma Protestante, a verdade da Palavra de Deus destacada, pregada e ensinada pela Reforma possa reformar a nossa vida a fim de que sejamos de fato “Herdeiros da Reforma”, e não apenas nominalmente “reformados”.
Soli Deo Gloria!

Ézio Martins de Lima, rev.