sexta-feira, março 23, 2012

Adoração


 “Dirigiu-se Jesus ao fariseu e lhe disse: Simão, uma coisa tenho a dizer-te. Ele respondeu: Dize-a, Mestre.  Certo credor tinha dois devedores: um lhe devia quinhentos denários, e o outro, cinquenta. Não tendo nenhum dos dois com que pagar, perdoou-lhes a ambos. Qual deles, portanto, o amará mais?  Respondeu-lhe Simão: Suponho que aquele a quem mais perdoou. Replicou-lhe: Julgaste bem.  E, voltando-se para a mulher, disse a Simão: Vês esta mulher? Entrei em tua casa, e não me deste água para os pés; esta, porém, regou os meus pés com lágrimas e os enxugou com os seus cabelos.Não me deste ósculo; ela, entretanto, desde que entrei não cessa de me beijar os pés.  Não me ungiste a cabeça com óleo, mas esta, com bálsamo, ungiu os meus pés.  Por isso, te digo: perdoados lhe são os seus muitos pecados, porque ela muito amou; mas aquele a quem pouco se perdoa, pouco ama. (Lucas 7.40-47)
Jesus estava num banquete protocolar na casa de um fariseu, quando uma mulher sem identidade resolveu prestar o seu culto àquele que a perdoou por inteiro. Ela não se intimidou com as formalidades e nem ficou refém dos preconceitos moralistas dos fariseus. Ela sabia de fato quão grave era o seu pecado e quão grande foi o seu perdão, por isso expressou o seu sincero amor a Deus. “Mas vem a hora e já chegou, em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e em verdade; porque são estes que o Pai procura para seus adoradores” (João 4.23).
A adoração dessa mulher revela sua profunda gratidão. A adoração ao Senhor Jesus Cristo é consequência da maior gratidão. A maior gratidão é o resultado do maior perdão. O maior perdão é por causa da existência dos maiores pecados. Os maiores pecados são produtos dos piores pecadores. Os piores pecadores são aqueles que, perdoados, se tornam adoradores agradecidos que se veem aceitos e acolhidos incondicionalmente pela graça do Salvador gracioso.
A adoração, assim, não é a sobra do nosso tempo, nem os resíduos dos nossos bens, tampouco o restante do nosso ser cansado e exaurido perante o Senhor, depois de um dia cheio de atividades sociais ou de trabalho. Deus não recebe esmola ou sobejo de uma vida dividida em agradar a muitos senhores. Adorar é a essência da existência do pecador que, consciente de ter sido alcançado pela graça, não esconde nada diante do seu Senhor. A miséria do nosso pecado e a grandeza do perdão que Jesus nos concede são os elementos principais que nos levam a adorá-lo sem reservas.
Simão, o fariseu que recepcionava Jesus em sua casa, não conseguia perceber a adoradora abrigada naquela pecadora desprezível, porque os seus olhos poluídos de si mesmo só viam os seus pecados.  Jesus, o reto árbitro que não julga as aparências e anota apenas o que vem do coração, compreendeu o juízo de valor que procedia daquele | “santo envernizado” e o confrontou: Simão, uma coisa tenho a dizer-te. Ele respondeu: Dize-a, Mestre. Certo credor tinha dois devedores: um lhe devia quinhentos denários, e o outro, cinquenta. Não tendo nenhum dos dois com que pagar, perdoou-lhes a ambos. Qual deles, portanto, o amará mais? (Lucas 7.40-42)
Como um bom judeu, Simão era ótimo em cálculo. “Respondeu-lhe Simão: Suponho que aquele a quem mais perdoou. Replicou-lhe: Julgaste bem” (Lucas 7.43). Jesus apreciou a resposta de Simão, posto que ele havia percebido que há um maior perdão para aquele que tem uma maior dívida. Isto pode muito bem significar que o maior pecador perdoado será sempre o mais agradecido dos adoradores.
A falta de compreensão da seriedade e abrangência do pecado é o principal responsável pela deficiência na estimativa da grandeza do perdão. O verdadeiro adorador é sempre uma pessoa totalmente indigna que se percebe realmente perdoada e aceita por uma graça plena e incondicional.
Quanto mais alguém alcançado pela graça se expõe à luz do evangelho, mais percebe em si as falhas decorrentes da natureza pecaminosa. Quanto mais se vê pecador, mais almeja a santidade. Quanto mais sobe a montanha da santidade, mais adquire consciência do seu pecado. Quanto mais consciência do seu pecado, mais carência da plenitude da salvação. Quanto mais necessidade da plenitude da salvação, mais se expõe à luz do Evangelho e mais a vida cristã se torna totalmente dependente da suficiência de Cristo, e, consequentemente, mais intensa será a adoração.
A ausência da verdadeira adoração vem sempre em consequência da falta de visão de quem somos de fato e de quão grave é o nosso pecado, bem como da falta de revelação de quem é o Senhor Jesus Cristo e seu perdão irrestrito e eterno.
A religião farisaica dá banquetes para Jesus, mas não consegue prestar um culto verdadeiro. Uma coisa é a cerimônia formal, outra bem diferente é o coração grato diante da exuberância da graça.  A crise da igreja atual é uma crise de adoração. A escassez da visão de Cristo e de sua obra consumada no Calvário é a causa da ausência da verdadeira adoração, por isso vemos muitos se prostrando em cultos falsos diante de alguém que não é Deus, e fazendo do altar um espetáculo bizarro e patético. Estamos sempre em perigo diante da liturgia à criatura. “Prostrei-me ante os seus pés para adorá-lo. Ele, porém, me disse: Vê, não faças isso; sou conservo teu e dos teus irmãos que mantêm o testemunho de Jesus; adora a Deus”. (Apocalipse 19.10)
Maior tempo na presença de Cristo adorando trará melhores tempos em companhia dos nossos irmãos. Precisamos de um ciclo de mutação que nos leve da comunhão com Deus para a companhia dos homens e nunca da companhia dos homens para a comunhão com Deus como temos feito atualmente. A fraqueza da nossa vida espiritual é que somos demasiadamente antropocêntricos e não Cristocêntricos. O nosso culto, infelizmente, quase sempre visa agradar aos homens e não glorificar ao Senhor.
Enquanto Simão procurava servir a Cristo com o seu jantar, a mulher pecadora o adorava acima de qualquer pretexto. A verdadeira adoração é o resultado de um profundo reconhecimento. Essa intensa gratidão é o produto de um perdão irrestrito e essa remissão completa é uma obra absoluta do Salvador soberano e suficiente.
Aleluia pelo valor da adoração movida pelo Espírito Santo e que se baseia tão-somente no plano da redenção de Deus Pai, consumada na cruz por Jesus Cristo, O Filho Eterno, que faz com que pecadores redimidos sejam chamados de “adoradores eleitos”.

No amor dAquele que nos amou primeiro,
Ézio Lima, pr

quinta-feira, março 15, 2012

DA MURMURAÇÃO À ADORAÇÃO

                A murmuração é a linguagem mais escancarada do descontentamento humano. O canto do insatisfeito é um réquiem, cujo conteúdo é a lamúria por aquilo que o contraria.
O livro do Êxodo mostra-nos que a murmuração foi o primeiro pecado do povo de Israel ao sair do Egito. Não obstante toda ação graciosa e milagrosa da parte de Deus para livrá-los da escravidão, não tardou formarem um coral de murmurados diante da primeira dificuldade em que se sentiram incapazes de transpor.
O Livro dos Atos dos Apóstolos também nos mostra que o pecado coletivo que deu início às divisões na igreja primitiva foi a murmuração. A causa da má distribuição da cesta básica causou uma reação diabólica de desagrado que gerou o vírus letal do resmungo ameaçador (Atos 7). A unidade do grupo foi atacada pela lastimável lamentação de alguns murmurantes. Se não fosse a ação sábia por parte dos apóstolos, os danos poderiam ter sido irremediáveis.
Matthew Henry escreveu que "as pessoas que mais se queixam são as que mais são motivo de queixa". A murmuração é um sintoma de desconforto com os desígnios divinos.  Murmurar é, no final das contas, considerar-se mais sábio que Deus e uma profissão de descrença. O murmurador canta no coral daqueles que não acreditam que Deus é poderoso o suficiente pra cuidar de nós ou que não é capaz de reverter as situações que se nos apresentam intransponíveis.
Jesus foi enfático com os seus discípulos: “Não murmureis entre vós”. (João 6.43). A murmuração é uma afronta direta ao caráter divino, pois é como o filho maldizer o pai/mãe que não mede esforços para protegê-lo, amá-lo e vê-lo crescer.  Ainda que a nossa existência neste mundo esteja cheia de acontecimentos desagradáveis, a vida dos verdadeiros discípulos de Cristo não pode ser um réquiem, composto com as linhas grosseiras do queixume e da lamúria.
A pessoa descrente e desgostosa fica sem opção na vida, ao deixar escorrer pelo canto da boca a baba peçonhenta da sua reclamação. Mas os filhos de Deus sabem que o canto de gratidão e louvor é a partitura que devem compor nesta vida: “Em tudo dai graças, porque esta é a vontade de Deus em Cristo Jesus para convosco”. (1 Tessalonicenses 5.18). Assim, cerramos os lábios da murmuração e soltamos a voz da gratidão. Os adoradores de Senhor Jesus, o Agnus Dei, são membros do único coral que entoa com alegria essa singular canção, que é a única aceita diante do trono celestial.  “Digno é o Cordeiro, que foi morto, de receber o poder, e riqueza, e sabedoria, e força, e honra, e glória, e louvor”. (Apocalipse 5.12).
No Amor dEle,
Ézio Martins de Lima, pr.