sexta-feira, dezembro 11, 2009

Redescobrindo a Palavra de Deus


O meu encanto e a minha relutância




Gosto da palavra “saudade”. Ela fala de coisas do coração, coisas que não se expressam em palavras, mas nem por isso são menos reais.
Saudade não se explica em dicionário, pois defini-la é empobrecê-la. Nem se explica como significado, pois o que é saudade, senão um sentimento repleto de significado?
Pois eu tenho saudade do tempo em que nossa igreja evangélica era conhecida como “a igreja da Palavra”. “O povo do livro”, como se dizia. Será que deixamos de ser a igreja da Palavra para sermos a igreja do poder, das promessas, dos programas impactantes, das bem-sucedidas estratégias de marketing, ou até a igreja que fornece votos de cabresto?
Não quero uma saudade nostálgica, típica de quem fica no passado e se nega a caminhar para o futuro. A nostalgia lamenta o tempo em que se levava a Bíblia, como livro, para a igreja e a folheava, acompanhando o que o pregador dizia. Pode ser muito mais fácil hoje projetar o texto bíblico no Power Point, sem que isso deixe de ser significativo. Mas, seja com a Bíblia aberta, seja com ela projetada ou lida no computador, que a saudade seja marcada por um desejo profundo de ouvir Deus falar através da sua Palavra. Saudade da sua presença, da sua voz, da sua companhia e do seu abraço.
Bom é que também se pode ter saudades do futuro. Por isso eu posso dizer que tenho saudade de sermos uma igreja reverente, que silencia para ouvir a Palavra de Deus e sente uma profunda necessidade de submeter-se a ela. Saudade de sermos uma igreja que quer ouvir a palavra de Deus na sua totalidade e não viver marcada por uma espécie de caça-versículos, sobre os quais elaboramos nossos slogans, teorias e teses de sucesso. Saudade de uma palavra que molda nossa vida, gesta nossa comunidade e nos ensina a ser igreja com espírito de serviço no mundo de hoje. O meu receio é que sejamos cativos de uma mentalidade de mercado onde o produto deve ser agradável, o cliente sempre tem razão e o povo da igreja deve ser satisfeito. Assim, quando choramos é porque ficamos comovidos; parece que já não sabemos como se chora de arrependimento, algo comum de acontecer quando Deus fala conosco.
Sempre, no decorrer da história da igreja, os processos de arrependimento, consagração e obediência resultaram do encontro com a Palavra de Deus. Um encontro forte e profundo, que nos mostra quem é Deus, quem somos nós e o quanto necessitamos da sua misericórdia. Vemos, por exemplo, no livro de Neemias, a palavra sendo lida para o povo, que chora com tal intensidade que a própria liderança insta com eles para que parem de chorar e celebrem: “‘Este dia é consagrado ao Senhor, o nosso Deus. Nada de tristeza e de choro!’ Pois todo o povo estava chorando enquanto ouvia as palavras da Lei” (Ne 8.9).
O que Deus vê quando olha para nós? Uma comunidade marcada pelo choro do arrependimento ou um grupo de pessoas cuja descrição mais apropriada seria: “Eles se recusarão a dar ouvidos à verdade, voltando-se para os mitos” (2 Tm 4.4)?
Precisamos voltar à Palavra, e fazê-lo com saudade. Saudade de ouvir a Deus, caminhar com ele e obedecer-lhe. Saudade que almeja continuamente redescobrir a Deus em seu amor e graça e profundo desejo pela nossa salvação e comunhão com ele. Saudade de ser uma comunidade de adoração a Deus e de serviço ao próximo, um povo marcado pela verdade e a justiça, desejoso de conhecer e buscar a vontade de Deus para as nossas sociedades. Um povo que, marcado pela esperança em Deus e por novos céus e nova terra, contagie a sua própria comunidade com o desejo de ouvir a Deus.
Eu tenho muitos anos de convivência com a Palavra de Deus. Nunca me cansei dela, e muito menos Deus cansou-se de falar comigo por seu intermédio. Aprendi as línguas antigas para poder lê-la no original, fui ensinado a usar as regras da exegese para poder entender e expô-la melhor. Tudo isso foi importante. Mas o que eu mais custei a aprender é que a Palavra não pode ser um mero objeto de estudo, nem se entende melhor quando é absorvida apenas como conhecimento. Aprendi que a Palavra é coisa para a cabeça, mas que nunca será realmente entendida e aceita, a não ser que seja também coisa do coração. Também aprendi que a minha percepção da Palavra empobrece quando ela é transformada em mera teoria e que a sua riqueza só se percebe na obediência. E obediência só se aprende obedecendo, como ensinou Bonhoeffer. E é nesta obediência que mais claudicamos. É com ela que eu reluto e tenho tanta dificuldade. Mas é dela que eu mais preciso, pois a saudade de Deus só se transforma em comunhão com ele no caminho da obediência. É por isso que precisamos da Palavra para nossa conversão. É por isso que precisamos aprender o que Bonhoeffer nos desafia a fazer: ler a Bíblia contra nós. Só entende a Palavra de Deus quem sabe e quer lê-la contra si; e isto, normalmente, só fazemos no confronto com a exortação, a realização de profundo desespero humano ou quando experimentamos uma profunda sede de Deus. Precisamos de igrejas que saibam ler a Bíblia contra si, que não resistam aos panos de saco do arrependimento e que nutram uma profunda sede de Deus no caminho da obediência ao seu chamado.

Valdir Steuernagel
Texto publicado na Revista Ultimato/março-2008

quarta-feira, dezembro 09, 2009

CORRUPÇÃO ABENÇOADA

Não há quem não tenha se estarrecido com as imagens da bandalheira que tomou conta da capital federal. Nunca antes na história deste país (para ser bem original) houve tantos, tão detalhados e incriminadores vídeos e provas de gente botando a mão na coisa pública.

Mas o que mais estranheza causou foi o acinte com a oração. Nas imagens o deputado Rubens César Brunelli aparece orando com Barbosa e Leonardo Prudente (presidente da Câmara Legislativa), logo após terem recebido a propina das mãos do Durval, e o faz nos seguintes termos: "Somos gratos pela vida do Durval ter sido instrumento de bênção para nossas vidas, para essa cidade, porque o Senhor contempla a questão no seu coração. Tantas são as investidas, Senhor, de homens malignos contra a vida dele. Nós precisamos da Tua cobertura e dessa Tua graça, da Tua sabedoria, de pessoas que tenham armas para nos ajudar nesta guerra. Todas as armas podem ser falhas, todos os planejamentos podem falhar, todas nossas atividades, mas o Senhor nunca falha. O Senhor tem pessoas para condicionar e levar o coração para onde o Senhor quer. A sentença é o Senhor quem determina, o parecer e o despacho é o Senhor que faz acontecer. Nós precisamos de livramento na vida do Durval, dos seus filhos, familiares."

Muitos há que se perguntaram como pode uma pessoa que ora agradecer a Deus por uma coisa que é fruto da corrupção, dizer que o pagador da propina é "instrumento nas mãos de benção", que "tantas são as investidas, Senhor, de homens malignos contra a vida dele" e, por cima de tudo pedir "precisamos da Tua cobertura e dessa Tua graça, da Tua sabedoria, de pessoas que tenham armas para nos ajudar nesta guerra".

Eu também me perguntei. Depois de refletir, conclui que a religiosidade espúria e satanizante que as igrejas, notadamente as neopentecostais, tem pregado e exercido, vendo demônios em tudo, é também a mesma que produz este tipo de aberração. Se há pregadores que expulsam o demônio da caspa, da obesidade, da esquizofrenia, que oram ungindo calcinhas e cuecas de casais com problemas sexuais, que dizem ser a pobreza castigo de Deus, nada os impede de ver no dinheiro fácil a benção. Se lhes falta bom senso para ver causas reais nas enfermidades e situações que satanizam, por que devem ter melhores instrumentos de análise nas "bênçãos"?

A falta de lucidez e critérios sérios se aplica aos dois extremos. Salta-se de um para outro (demônio e benção) com a mesma leviandade com que expulsam demônios e glorificam a posse e a propriedade.

Se você tiver alguma dúvida e estômago assista a estes pregadores da ignorância nas suas falas televisivas, onde, quais papagaios da fé, repetem ad nausean as mesmas frases e jargões, cometendo a todo o instante as aberrações de satanizar uma paralisia cerebral, uma miopia, uma dor na coluna ou cólica menstrual e, pari passu, agradecer as bênçãos de um carro novo, um aumento de salário, uma casa nova, ou seja lá o que for.

Marcos Inhauser

Campinas, 08 DE NOVEMBRO DE 2009

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quarta-feira, novembro 18, 2009

DESPEJANDO AMOR


“E a esperança não nos decepciona, porque Deus derramou seu amor em nossos corações, por meio do Espírito Santo que ele nos concedeu.” (Romanos 5:5 – NVI)

De vez em quando a Bíblia nos lembra que o dar generoso começou no coração de Deus. Está mesmo no âmago do plano eterno Deus fez para resgatar o gênero humano pela morte e ressurreição de Jesus.
"Deus despejou o amor Dele em nossos corações", Paulo escreveu. Não podemos limitar estas palavras a mera retórica teológica. Paulo tinha experimentado este amor. Tendo crescido e sido treinado dentro da estrutura de pensamento da Lei, ele sabia o que significava sentir-se como se estivesse sempre aquém das expectativas. Sabia das demandas debilitadoras de uma religião que dizia que ninguém era suficientemente bom. Conhecia bem o terrível o fardo de se estar sempre em dívida com Deus.
E então ele entrou em contato com a graça do Deus de Jesus Cristo. Esta era uma dimensão do Deus de Israel que ele nunca tinha conhecido. E uma vez ele que se deu conta disto, nunca deixou de exaltar o Deus que o conduziu com seu amor, seu generoso amor.
Esta não era uma generosidade condicional. "Quando nós ainda éramos fracos", Paulo escreveu, "Cristo morreu pelos ímpios". Estas palavras familiares ameaçam passar por nossas cabeças sem a contemplação que elas merecem. Elas nos oferecem pelo menos duas mensagens. A primeira é que nós fomos e somos amado por Deus, através de Cristo, embora não fizéssemos nada para merecer seu afeto. Na realidade, nós contrariamos freqüentemente este amor, tal como um filho que irracionalmente se rebela contra seus pais.
O segundo pensamento é igualmente importante: O Deus que nos dá tão generosamente proveu um padrão de generosidade para adotarmos. No âmago de nossa generosidade deve haver um claro objetivo: Devemos ser generosos com o necessitado, com o fraco, com os que são vitimados por preconceitos e exclusões, não porque eles nos imploram que façamos assim, ou porque prometem nos elogiar ou nos apreciar, ou ainda porque nós esperamos algum benefício com isso. Não! Somos generosos com os outros porque Deus é generoso para conosco.
Devemos ser generosos porque Deus nos agracia com tudo que somos e temos. Devemos ser generosos como Deus é. E devemos ser tão generosos quanto Deus é. E isso requer maturidade e obediência de nossa parte.
Deus despejou amor no seu e no meu coração. Que possamos ser gente que saía por este mundo ‘despejando amor’ na vida dos outros!
No amor dAquele que nos amou primeiro,

Rev. Ézio Martins de Lima

domingo, novembro 15, 2009

“Das profundezas clamo a Ti, Senhor” - Salmo 130.1



“Somente nas profundezas do sofrimento e do desespero, os homens chegam a conhecer a graça”.
Martin Buber
Somos tão diferentes, e ao mesmo tempo tão iguais! Reagimos de forma tão diferente frente a situações idênticas. Somos diferentes na forma de perceber o mundo, de sentir o mundo e até de percebemos a nós mesmos. Gostamos de estilos musicais diferentes, de nos vestirmos diferentemente, e nossos gostos culinários são diferentes mesmo dentro de uma mesma casa. Temos aptidões diferentes, e dentro de uma mesma profissão, agimos de forma diferente. Também nos divertimos de forma diferente, rimos de coisas diferentes. Acreditamos em diferentes idéias, filosofias e legendas partidárias. Somos diferentes em nossa cor, altura, peso, forma de olhar, de falar, ou de não falar, de andar, acordar e dormir... Assim somos nós, os seres humanos: diferentes.
Não obstante nossas diferenças todos nós indistintamente temos algo similar, que nos torna iguais, que nos reporta a uma mesma identidade, à nossa humanidade: todos nós sabemos muito bem o que é a dor, o sofrimento! Na linguagem do Salmista: Todos nós conhecemos bem as profundezas!“Todos somos irmãos e irmãs no sofrimento. Ninguém chega até nós de uma casa que nunca conhece a tristeza”.
Como bem escreveu Philip Yancey, “O problema do sofrimento não é algo que se possa resolver facilmente e depois arquivar. Ouve-se o seu brado cada vez que um furacão fustiga algum lugar, cada vez que um vizinho descobre que seu filho é deficiente, cada vez que alguém da minha família fica sabendo do diagnóstico terrível de câncer, cada vez que um sintoma físico me obriga a ir ao médico”.
Há um interessante relato bíblico no livro de Êxodo, capítulo 14. Ele conta a história da saída do povo de Deus, do Egito, e de como, de repente, esse povo viu-se num verdadeiro “beco sem saída”. Mal haviam iniciado a caminhada e já parecia não haver futuro para eles, pois de um lado estava o mar insuperável; de outro, o deserto mortal e atrás o exército impiedoso de Faraó. O povo de Deus estava encurralado. Caíra numa verdadeira armadilha, tanto assim que o próprio Faraó disse: “estão desorientados”. Foi o primeiro momento de crise para o povo de Deus e também o seu primeiro grande teste de fé.
Às vezes nós nos encontramos em situações tão críticas quanto àquela do povo de Deus. Também enfrentamos momentos para os quais parece não haver saída. Há momentos que visitamos as profundezas do sofrimento! Pressionados por todos os lados desorientamo-nos totalmente. Nas situações de crise as mais diferentes reações são possíveis. Há aqueles que gostariam de fugir, mas sabem, tanto quanto nós, que a fuga não é a solução. Elias num momento de crise fugiu. Foi esconder-se numa caverna. Deus arrancou-o dali. Não há caverna capaz de proteger-nos de nossas crises.
Outros se revoltam e, na sua revolta, buscam sempre um bode expiatório para a situação. Encontrar um culpado é mais fácil do que enfrentar a crise que precisa ser resolvida.
Outros buscam saída em outros deuses. As pessoas em situação crítica, com facilidade entregam-se a outros deuses e a outros ídolos, num gesto desesperado para escapar da crise. É uma espécie de vale tudo. Vendem a própria alma, contanto que se salvem. Foi assim que nasceu o bezerro de ouro, no meio do povo de Deus.
E são muitos os que, no momento de crise, adoram o bezerro de ouro.
Mas há saída? Sim, há!
O texto nos dá inspiradora indicação nas situações de crise; mais do que nunca é preciso confiar em Deus. A salvação para o povo de Deus, naquele momento de crise, veio da forma mais inesperada: através do próprio mar.
Deus abre o seu caminho em meio às nossas crises e convida-nos para que marchemos com ele: “diga ao povo que marche”.
Todos nós vivemos momentos crise. Crises de toda ordem estão aí fechando caminhos. Em alguns momentos parece que não há saída para nós. Mas há. Há o caminho de Deus. Ele é a nossa esperança. Ele abre o mar, atravessa o deserto e vence o inimigo.
D’Ele, tão somente d’Ele vem a nossa salvação.
“Das profundezas clamo a Ti, Senhor”
Rev. Ézio Martins de Lima