quarta-feira, outubro 10, 2007

Cristão Extravagante




O povo evangélico brasileiro é profícuo na criação de jargões e modismos. Termos como “unção”, “cair na unção”, “tá amarrado”, “é tremendo!”, etc., são incorporados ao vocabulário evangélico sem que se dê conta de que não apenas são incompreensíveis para a grande maioria, como também carece de fundamento bíblico o sentido que lhes são atribuídos. O termo “adoração extravagante”, que é título de um livro, é o atual jargão da “moda evangélica”.
A vida cristã, natural e saudável, é constituída de inúmeros aspectos que precisam ser observados, tais como a leitura da Bíblia (leitura devocional e o estudo), a oração, o louvor, a ação de graças, a adoração, a comunhão com a igreja (o corpo de Cristo), o jejum... O problema é que temos a tendência natural de eleger um desses aspectos da espiritualidade cristã, relegando os outros aspectos a um plano inferior.
Quando falamos em “extravagante” normalmente associamos com algo “fora-do-comum”, “anormal” e, num certo sentido, excêntrico. Questiono se estes termos são os melhores para qualificar um discípulo de Jesus. Contudo, é certo que o cristão é alguém cujo estilo de vida o torna diferente e peculiar. Mas em que consiste esta diferença? Na roupa que vestimos ou no vocabulário que usamos? Ser um cristão é ser meramente um repetidor de palavras, de ritos ou de um comportamento padronizado pelo meio?
A vida cristã não pode sofrer nenhuma forma de “reducionismo”! Não podemos decompor o todo da riqueza da expressão de fé cristã e, assim, conceder a uma de suas partes mais atenção e valor que a realidade total. Por isso, mais importante do que ser um “adorador extravagante” é ser CRISTÃO! É ser alguém cuja vida em todas as suas dimensões expressa o Senhorio de Jesus Cristo. E isto pode significar inclusive o abandono do modelo “insosso-gospel”, que padroniza por baixo o evangélico brasileiro, tornando-o em um mero consumidor de produtos do “supermercado da bugiganga gospel”, um repetidor de jargões e um imitador de um modelo “gospel” quase sempre distante do real paradigma: Jesus Cristo!
Seria inteiramente despropositado e sem sentido perguntar de que forma Lutero, Calvino, Knox adoravam a Deus! Será que eles se esparramavam pelo chão? Será que eles levantavam os seus braços? Será que eles se emocionavam durante o culto? Você já parou para pensar como os Apóstolos Pedro e Paulo adoravam a Deus? Por que será que o livro dos Atos dos Apóstolos não se preocupa em detalhar a “liturgia” da Igreja e o comportamento dos cristãos no culto? Não será isto expressão de que a compreensão de adoração era muito diferente da que se tem hoje? Se a adoração a Deus é reduzida ao momento que entoamos alguns poucos cânticos, e se a “qualidade” dessa adoração é medida pelo nível das nossas emoções, não será isso pouco demais?
Quando Atos dos Apóstolos relata a vida da Igreja nos seus primeiros anos não limita adoração às atividades litúrgicas no Templo e muito menos reduz a fé à mera emoção. A vida cristã da igreja nascente não se restringia ao Templo ou sinagogas, e posteriormente às reuniões nas casas ou aos “lugares secretos”. A vida cristã não se limitava ao horário do culto ou terminava após a performance no palco, como acontece em nossos dias! A vida cristã rompe a dimensão do espaço e do tempo litúrgico, pois o lugar do cristão não se restringe nem ao culto, nem à igreja, nem a um evento especial, com horas marcadas. O lugar para a expressão da vida cristã é o mundo. A adoração é em “espírito”; portando, em todos os lugares tenho acesso a Deus. O tempo é agora! A expressão da fé pela adoração dá-se no viver diário e comum, cujos frutos não estão escondidos, mas por serem visíveis se tornam inclusive elementos motivadores para que os “não-crentes” glorifiquem a Deus (Mateus 5.14-15).
A verdadeira adoração é mais do que meros gestos, posturas e emoções. A verdadeira adoração é mais do que barulho, suor e atos de extravagância. Conforme bem definiu o bispo anglicano William Temple: ”Adorar é avivar a consciência pela santidade de Deus, alimentar a mente com a verdade de Deus, purgar a imaginação pela beleza de Deus, abrir o coração ao amor de Deus, consagrar a vontade ao propósito de Deus“. A adoração cristã, ao contrário do conceito pagão de um ato que visa agradar ou barganhar com a divindade, é um ato que devemos praticar continuamente a fim de não nos esquecermos da nossa total e irrestrita dependência da graça de Deus.
A denominada “adoração extravagante” pode ser altamente prejudicial se não gerar uma vida cristã igualmente “além-da-mediocridade”. Se a adoração não for expressão contínua da vida em comunhão com Deus em todas as áreas, tornar-se-á um ato vazio e, portanto, destituído de sentido.
Muito mais do que adoradores extravagantes em busca de um momento individualista de êxtase espiritual, busquemos ser cristãos autênticos, que compreendem que adoração genuinamente cristã consiste em uma vida transformada e transformadora, abençoada e abençoadora, evangelizada e evangelizadora. Afinal, “nenhuma adoração é totalmente agradável a Deus enquanto houver em mim algo desagradável a Deus“. A. W. Tozer

Rev. Ézio Martins de Lima

quarta-feira, outubro 03, 2007

ORANDO COM OS SALMOS

O livro dos Salmos é o mais lido da Bíblia Sagrada! De uma forma muito especial, os Salmos fazem parte da espiritualidade cristã. De geração a geração, Salmos são lidos, decorados e orados nos momentos de oração individual, nos cultos em família e nos templos. Nos momentos de alegria, dor, angústia, medo, solidão... as pessoas sempre recorrem ao livro dos Salmos!
João Calvino, o Reformador, em seu prefácio ao Comentário ao Livro dos Salmos escreveu:
“Tenho por costume denominar este livro –e creio não de forma incorreta– de: “Uma Anatomia de Todas as Partes da Alma”, pois não há sequer uma emoção da qual alguém porventura tenha participado que não esteja aí representada como num espelho. Ou, melhor, o Espírito Santo, aqui, extirpa da vida todas as tristezas, as dores, os temores, as dúvidas, as expectativas, as preocupações, às perplexidades, enfim, todas as emoções perturbadas com que a mente humana se agita (...) Com toda certeza é uma rara e singular vantagem quando todos os esconderijos se põem a descoberto e o coração é trazido à claridade e purgado da mais perniciosa das infecções –a hipocrisia! Em suma, como invocar a Deus é um dos principais meios de garantir nossa segurança, e como a melhor e mais inerrante regra para guiar-nos nesse exercício não pode ser encontrada em outra parte senão nos Salmos, segue que em proporção à proficiência que uma pessoa haja alcançado o conhecimento em compreende-los, terá também alcançado o conhecimento da mais importante parte da doutrina celestial. A genuína e fervorosa oração provém, antes de tudo, de um real senso de nossa necessidade, e, em seguida, da fé nas promessas de Deus. (...) Numa palavra, tudo quanto nos serve de encorajamento, ao nos pormos a buscar a Deus em oração, nos é ensinado neste livro. (....) este livro nos torna notório este privilegio, o qual é desejável acima de todos os demais, a saber: que não só nos é franqueada aquele familiar acesso à presença de Deus, mas também que temos permissão e nos é concedida a liberdade de por a descoberto diante dele aquelas nossas fraquezas que teríamos vergonha de confessar diante dos homens. Além disso, temos também aqui prescrito uma regra infalível a nos orientar sobre a maneira correta de oferecer a Deus o sacrifício de louvor, o qual ele declara ser a coisa mais preciosa aos seus olhos e o mais agradável dos aramos (...) Em suma, não há outro livro em que somos mais perfeitamente instruídos na correta maneira de louvar a Deus, ou em que somos mais poderosamente estimulados à realização deste sacro exercício”
[1]

No livro de Salmos encontramos registros diversificados da vida com Deus por meio de relatos de indivíduos que expressam por meio da poesia a peregrinação na jornada da vida espiritual. Nossa aproximação do livro dos Salmos, por isso mesmo, não pode ser como um aluno em busca de mais conhecimento, mas como um co-peregrino em busca de relacionamento com Deus! Está é a temática do livro dos Salmos! Nestes relacionamentos individualizados encontramos a expressão genuína da fé por meio dos mais variados sentimentos. Neles, encontramos a profissão de fé de que Deus está presente, mas também o grito da solidão daquele que não consegue sentir a presença do Criador. Os Salmos não tentam abrandar a raiva por meio da racionalização, nem dão conselhos abstratos sobre a dor; em vez disso, manifestam as emoções de forma clara e audível, direcionando seus sentimentos para o Altíssimo Senhor! Os Salmos, por isso, são um convite à oração e à espiritualidade destituída de máscaras!
“Esta também é a razão porque o Saltério é o livrinho de todos os santos. Qualquer que seja sua situação, cada qual encontra nele salmos e palavras que se aplicam à sua condição e lhe são tão apropriadas como se fossem escritas somente para ele, de tal modo que nem ele próprio seria capaz de encontrar e desejar outras palavras melhores” (Martinho Lutero).

Rev. Ézio Martins de Lima

[1] CALVINO, João. O Livro de Salmos. São Paulo, Paracletos, p.34-36.

segunda-feira, outubro 01, 2007

Além de Filhos, também amigos do Senhor


Disse Jesus: “... tenho vos chamado ‘amigos’”
(João 15,15)


Ter amigos de verdade é uma necessidade, bem como uma benção de Deus. A Bíblia diz que no momento da nossa angústia o amigo se faz irmão (Provérbios 17.17). Contudo, bem melhor do que ter amigos, é ter um amigo que conhece nossas necessidades mais profundas e, que pode nos fortalecer diante das dificuldades e tem poder para nos livrar dos perigos desta vida e nos garantir a vida eterna. Este amigo é Jesus Cristo.
O Senhor nosso Deus não tem favoritos, mas tem amigos íntimos. Só os amigos O "conhecem na Sua intimidade", e podem a Ele recorrer sem cerimônia em tempo de crise, dúvida, risco, tristeza ou coisa desse tipo. Ser amigo do Senhor é estar protegido dos males da solidão; é ter consciência da Sua constante presença, providência e segurança. Ele se agrada quando qualquer filho decide por uma relação estreita e mais pessoal.
O Senhor quer muito mais de nós, Seus filhos. Quer-nos em intimidade, amigos. Como foram Enoque, Noé, Abraão, Jacó, José, Davi, Ezequias, Paulo e tantos outros que estiveram dispostos a ouvir a Sua voz e, com Ele, a transformar o mundo. Os amigos do Senhor, ao longo da história, se destacaram por suas experiências com Ele. Ultrapassam o tempo e são lembrados até hoje.
Em geral, em se tratando do povo de Deus, os Seus filhos vivem a história que Ele mesmo escreveu, mas Seus amigos são chamados por Ele para fazer acontecer. Só eles são escolhidos (premiados) para compartilhar dos Seus projetos. Daí a importância de manter uma constante e crescente vida de oração em busca da Sua perfeita vontade. Além do mais, a alma humana, mesmo redimida da morte espiritual, quer tenha consciência ou não, carece de um relacionamento espiritual, amigável, duradouro e mais estreito com o Seu Redentor. “A minha alma apega-se a Ti; a Tua destra me ampara”(Salmo 63.8), disse Davi, amigo do Senhor, e por isso mesmo, Rei de Israel (o Senhor investe em Seus amigos!!).
Infelizmente, alguns filhos de Deus - por não conhecerem-No como Amigo - têm sistematicamente regado em seus corações um sentimento de orfandade, que produz insegurança e medo. Na vida cristã, os sentimentos que produzem bons resultados custam muito até serem cultivados. Dependem do quanto investimos na aproximação pela intimidade com o Senhor.
De modo contrário, sentimentos como orfandade criam com bastante facilidade raízes profundas no coração. Por isso, é fundamental que, ao exemplo de Davi, apeguemo-nos ao Senhor, mesmo que quando "agarrados a Ele" provemos a aridez de todos os desertos dessa vida. “O choro pode durar toda noite, mas a alegria vem pela manhã" (Salmo 30.6b). Quando chorarmos devemos chorar somente apegados a Ele, pois Ele é "Galardoador dos que O buscam"(Hebreus 11.6b)... As promessas do Senhor valem mais do que tesouros - especialmente para os amigos. Só a intimidade com o Senhor produz segurança, só a segurança leva à alegria, e essa alegria nos faz provar o sentimento de sermos mais do que filhos, mas filhos e amigos do Senhor.
Seja amigo do Senhor! Busque intimidade com o Senhor!
Que Deus te abençoe!


Revs. Ézio Martins de Lima
e Ricardo César Vasconcelos

sábado, setembro 29, 2007

O PERDÃO QUE VENCE A CULPA

“Agora, pois, já nenhuma condenação há para os que estão em Cristo“. (Romanos 8.1)

No seu importantíssimo livro “Culpa e Graça”, o Dr. Paul Tournier escreveu: “Parece bastante claro que o homem não vive sem culpa. Ela é universal. Mas ela desencadeia, pouco a pouco, quer seja reprimida ou reconhecida, dois mecanismos inversos: quando reprimida, ela dá lugar à cólera, à revolta, ao medo e à angústia, a uma insensibilidade da consciência, a uma impossibilidade crescente de reconhecer as próprias faltas e a uma exaltação crescente de impulsos agressivos. Quando reconhecida conscientemente, ela conduz ao arrependimento, à paz e à segurança do perdão de Deus, a um refinamento progressivo da consciência e a um enfraquecimento progressivo dos impulsos agressivos”. [1]
O sentimento de culpa atormenta-nos a todos, quer sejamos ricos ou pobres, religiosos ou não. A maneira humana de lidar com a culpa é a expiação. Os estudiosos da “psiquê” humana asseveram que muitas doenças físicas e psíquicas, acidentes e frustrações na vida pessoal e profissional são tentativas de auto-expiação; isto é, uma forma de punição que o sofredor administra a si mesmo com o propósito de “saldar a dívida” advinda da culpa.
O moralista usa a sua religiosidade, ou código moral, a fim de reprimir a culpa. Contudo, reprimir, esconder, projetar ou negar a culpa, não resolve os tormentos pelos quais sofre a mente culpada. O que se sente “pecador” e “miseravelmente e desgraçadamente” culpado, por sua vez, busca livrar-se da culpa mediante a expressão pública das suas faltas. Quase sempre, contudo, este mecanismo revela-se como uma falsa humildade ou pseudo-arrependimento, haja vista que a autocomiseração também é uma tentativa de auto-expiação.
O caminho para a solução do problema da culpa é simples! No Evangelho de Jesus Cristo, aliás, tudo é demasiadamente simples! O início da caminhada depende, contudo, da decisão humana de romper com seus mecanismos de defesa e de auto-expiação e assumir a responsabilidade pessoal pelas faltas cometidas, transgressões, erros e delitos.
Reconhecer a culpa e a insuficiência dos nossos esforços de auto-expiação é fundamental, mas não é suficiente. A Palavra de Deus ensina-nos que “Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda a nossa injustiça” (I João 1.9). Confessar, contudo, não é simplesmente fazer um relato das faltas, como se Deus precisasse ser informado sobre nossos atos. Afinal, Ele conhece todas as coisas (Hebreus 4.13). Confessar é acima de tudo concordar com Deus no fato de que meus erros transgridem a Sua vontade, reconhecer que sou merecedor da condenação, crer que Jesus Cristo se fez condenação em meu lugar, efetuando o pagamento da minha dívida ao levar sobre si a minha culpa, e decidir voluntariamente e prazerosamente cumprir a Sua vontade.
Não existe confissão verdadeira sem arrependimento verdadeiro. Arrependimento é o reconhecimento da culpa. É despojar-me das máscaras e das sutilezas auto-expiatórias da repressão e autocomiseração e crer na obra propiciatória de Cristo. O senso de culpa que nos leva a Deus nos revela, assim, o seu amor e o seu perdão. A confissão, fruto de sincero arrependimento, traz-nos o perdão de Deus; este, por sua vez, vence a culpa e nos traz a paz! “Justificados, pois, mediante a fé, temos paz com Deus por meio de nosso Senhor Jesus Cristo”. (Romanos 5.1)
Por isso o apóstolo Paulo, depois ter exclamado o desespero causado pela culpa (Romanos 7.21-24), escreveu: “Agora, pois, já nenhuma condenação há para os que estão em Cristo“. (Romanos 8.1)
Não obstante a obra de Deus ser perfeita, o que fora perdoado pode reter na memória a culpa pelos seus erros e fracassos! Ainda que perdoado, o cristão pode viver continuamente acuado pelas lembranças de seus erros, penalizando-se e sofrendo os danos da auto-acusação. A fé em Cristo, contudo, não apenas nos livra da condenação, mas também da acusação. “(...) se o nosso coração nos acusar, certamente Deus é maior do que o nosso coração” (I João 3.20); e ainda: “Pois, para com suas iniqüidades, usarei misericórdia e dos seus pecados jamais me lembrarei” (Hebreus 8.12).
“É franca a porta divinal/Aberta a todo mundo.
Por ela, o pecador mortal,/Avista amor profundo.

Oh, graça imensa, pois, assim,
A porta é franca mesmo a mim!

Entrai: Jesus vos dá perdão,/As culpas redimindo.
Entrai, buscando a salvação,/Ó pecador bem-vindo!
(Sarah P. Kalley - Salmos e Hinos, 283)

Rev. Ézio Martins de Lima


[1] TOURNIER, Paul. Culpa e graça. São Paulo, ABU, 1985, p. 176.