sexta-feira, outubro 08, 2010

A Oração e o Jejum - um texto da Espiritualidade Cristã Ortodoxa

Arcebispo Stylianos da Austrália

Ao entrar mais uma vez no período da Grande Quaresma, é natural que recordemos as características básicas que tem marcado a ascese dos cristãos ortodoxos. Entre estas características, a oração e o jejum têm lugar central.
Quando um ortodoxo fala de jejum, a oração vem imediatamente a sua mente; quando fala de oração, de igual modo o jejum vem automaticamente a sua mente. Isto porque estes dois meios de comunicação com Deus estão intimamente relacionados. É por isso que Cristo, quando seus discípulos tentaram em vão libertar um jovem dos espíritos malignos que o atormentavam, apontou este duplo meio, a oração e jejum, como a mais poderosa arma que o ser humano tem contra o diabo. «Este tipo de demônio não pode ser expulso senão por meio da oração e do jejum» (Mc 9, 29)
Contudo, as pessoas «cultas e liberais» de nosso tempo, que analisam tudo e tudo desmistificam, não encontram explicações para justificar a prática do jejum e da oração. Perguntam-se qual o significado de falar com Deus através da oração, pedindo-lhe ajuda através das petições se Ele, que é Onisciente, tudo sabe. Da mesma forma se perguntam, o que importaria para Deus o comer este ou aquele alimento, com maior ou menor quantidade, neste ou naquele dia.
Se, a primeira vista, tais questões parecem persuasivas e justas, contudo, os que julgam o jejum e a oração desta maneira não captaram o seu significado mais profundo. Sem dúvida, o significado da oração não está somente no fato de comunicar a Deus as necessidades que temos, mas de exercitar nossa humildade diante d'Ele, abrir-lhe nosso coração e colocar nossa vida em suas mãos; sentir o calor do diálogo com Ele e declarar que nós livremente o reconhecemos como o Senhor de nossa vida.
O jejum, tão pouco, tem valor moral ou espiritual em si mesmo, como se fosse uma dieta alimentar, pois Deus não tem nosso bem estar biológico como sua medida. É precisamente por esta razão que São Paulo, que viveu tão pouco, mas que tanto sofreu, não cessou de confessar claramente que «não perderemos nada se não comermos nem ganharemos nada se comermos; pois estas coisas não melhoram nossa relação com Deus». O jejum, portanto, adquire seu significado moral e espiritual na medida em que chega a ser o meio e o potencial para uma melhor comunicação com Deus. E, verdadeiramente, mediante o jejum o ser humano luta para controlar seus desejos e instintos biológicos irracionais para ser mais livre, para abster-se das atrações do mundo e para chegar a ser mais transparente e mais receptivo em sua comunicação espiritual. O jejum e a oração não são fins em si mesmos, mas meios de comunicação com Deus, e tal comunicação é nosso objetivo e cume. Um lindo provérbio árabe diz : «a alma não quer nem café nem cafeteira, apenas companhia; o café é apenas um pretexto».
Poderíamos dizer que o jejum e a oração são «pretextos» sagrados para capacitar o ser humano a romper o monólogo com seu ego tornando-se humilde e assim poder comunicar-se com Deus e receber assim a bênção, a iluminação e a santificação que esta comunicação nos traz. Seguramente, as palavras da Escritura sempre terão autoridade eterna: «Deus resiste aos soberbos, e aos humildes dá a sua graça». Tg 4, 6

FONTE:
Revista The Orthodox Messenger. Março-Abril 1998

sexta-feira, outubro 01, 2010

Invocação e Louvor

És grande, Senhor, e infinitamente digno de ser louvado; grande é teu poder, e incomensurável tua sabedoria. E o homem, pequena parte de tua criação quer louvar-te, e precisamente o homem que, revestido de sua mortalidade, traz em si o testemunho do pecado e a prova de que resistes aos soberbos. Todavia, o homem, partícula de tua criação, deseja louvar-te.
Tu mesmo que incitas ao deleite no teu louvor, porque nos fizeste para ti, e nosso coração está inquieto enquanto não encontrar em ti descanso.
Concede, Senhor, que eu bem saiba se é mais importante invocar-te e louvar-te, ou se devo antes conhecer-te, para depois te invocar. Mas alguém te invocará antes de te conhecer?
Porque, te ignorando, facilmente estará em perigo de invocar outrem. Porque, porventura, deves antes ser invocado para depois ser conhecido? Mas como invocarão aquele em que não crêem? Ou como haverão de crer que alguém lhos pregue?
Com certeza, louvarão ao Senhor os que o buscam, porque os que o buscam o encontram e os que o encontram hão de louvá-lo.
(Confissões, Agostinho de Hipona)

quarta-feira, setembro 29, 2010

FORMATURA - CURSO ALPHA

Hoje, na IPICB, às 19h30min... acontece a primeira celebração de formatura do Curso ALPHA. Sejam bem-vindos!

 

sexta-feira, setembro 17, 2010

SOBRE O CANSAÇO DE DEUS

Precisamos de descanso! Jesus disse que veio para os cansados (Mt. 11.28-30), pois Deus sabe que nos esgotamos física-emocionalmente-espiritualmente e, não raro, ficamos exauridos.
Pode ser uma observação por demais reducionista, mas penso que estamos vivendo no tempo do cansaço. Não quero aqui me aventurar a abordar todas as causas, mas me parece que o tédio que domina as pessoas neste nosso tempo tem origem em três pontos essenciais: a) nas expectativas irreais (no que tange ao sucesso e prazer); b) nas entregas emocionais (doação acompanhada da auto-anulação); c) e ausência de sentido existencial (no que tange à razão última da vida).
O cansaço é um sinal biológico que aponta para a nossa necessidade de refrigério físico-emocional-espiritual. Isto posto, o cansaço é um alarme que nos chama atenção para os nossos desajustes. Às vezes, uma boa noite de sono, um momento de recolhimento, uma mudança de atividade, traz-nos de volta a sensação de bem estar. Contudo, é preciso ficar atento quando o sintoma se torna permanente e o que deveria produzir o esperado ‘descanso’ não alcança êxito.
A Bíblia nos diz que Deus também se cansa. Aqui, obviamente, é necessário um exercício de reflexão. O cansaço de Deus não é o esgotamento ou “Síndrome de Burnout” (1). Quando a Bíblia se refere ao cansaço de Deus utiliza-se do que a teologia denomina de “Antropopastimo”, que é atribuir a Deus atitudes e ações humanas.
Devemos ficar atento ao que produz “cansaço em Deus”:
Is 1.14 -As vossas Festas da Lua Nova e as vossas solenidades, a minha alma as aborrece; já me são pesadas; estou cansado de as sofrer.
Is 43.24 - Não me compraste por dinheiro cana aromática, nem com a gordura dos teus sacrifícios me encheste, mas me deste trabalho com os teus pecados e me cansaste com as tuas maldades.
Jr 15.6 - Tu me deixaste, diz o SENHOR, voltaste para trás; por isso, estenderei a mão contra ti e te destruirei; estou cansado de me arrepender.
O que “cansa” a Deus é exatamente o que nos provoca tanto cansaço, fadiga, desânimo e exaustão. A boa notícia é que Deus não se cansa quando nos desçamos nEle:
“Povo de Israel, por que você se queixa, dizendo: “O Senhor não se importa conosco, o nosso Deus não se interessa pela nossa situação”? Será que vocês não sabem? Será que nunca ouviram falar disso? O Senhor é o Deus Eterno, ele criou o mundo inteiro. Ele não se cansa, não fica fatigado; ninguém pode medir a sua sabedoria. Aos cansados ele dá novas forças e enche de energia os fracos. Até os jovens se cansam, e os moços tropeçam e caem; mas os que confiam no Senhor recebem sempre novas forças. Voam nas alturas como águias, correm e não perdem as forças, andam e não se cansam”. (Isaías 40.27-31 - NTLH)
Quando estou cansado, Senhor.
Sem forças, exaurido e fadigado.
Quando, Senhor, meus pés estão trôpegos
e o caminho fica dificultoso.
Toma, Senhor, minhas mãos pequenas entre as Suas
E guia meus passos,
Faz-me sentir, então, em Seus braços
e cura-me do meu cansaço.

Rev. Ézio Martins de Lima

(1) Distúrbio psíquico de caráter depressivo, precedido de esgotamento físico e mental intenso, definido por Herbert J. Freudenberger como "(…) um estado de esgotamento físico e mental cuja causa está intimamente ligada à vida profissional