terça-feira, abril 28, 2009

O Evangelho da Graça na perpectiva de Paulo

• A graça de Deus é a totalidade pelo que homens e mulheres são tornados justos (Rm 3:24; Tt 3:7).
• Pela graça Paulo foi chamado (Gl 1:15).
• Deus derrama sua gloriosa graça sobre nós em seu Filho (Ef 1:6).
• A graça de Deus foi manifestada para a salvação de todos (Tt2:ll).
• A graça de nosso Senhor superabundou com a fé e o amor que há em Jesus Cristo (1Tm 1:14).
• A graça é depósito ao qual temos acesso através de Jesus Cristo (Rm5:2).
• É um estado ou condição em que nos encontramos (Rm 5:2).
• É recebida em abundância (Rm 5:17).
• A graça de Deus abundou mais que o pecado (Rm 5:15, 20,2I;6:1).
• É-nos dada em Cristo (ICo 1:4).
• Paulo não a recebeu em vão (2Co 6:1).
• A superabundante graça de Deus está dentro do cristão
• (2Co 9:14).
• Ela se estende para mais e mais pessoas (2Co 4:15).
• A graça contrasta com as obras, que carecem do poder para salvar; se as obras tivessem esse poder, a realidade da graça seria anulada (Rm 1 l:5ss; Ef 2:5,7ss; 2Tm 1:9).
• A graça contrasta com a Lei. Tanto judeus quanto gentios são salvos pela graça do Senhor Jesus (At 15:11).
• Apegar-se à Lei é anular a graça (Gl 2:21); e quando os gálatas aceitaram a Lei caíram da graça (Gl 5:4).
• O cristão não está debaixo da Lei, mas debaixo da graça (Rm6:14ss).
• A graça contrasta com o que é dívida (Rm 4:4).
• O evangelho, que é a boa nova da graça, pode ele mesmo ser chamado de graça (At 20:24) ou de palavra da graça (At 14:3; 20:32).

O Deus de toda graça

Série: GRAÇA RADICAL

O Deus de toda graça

Texto: Lucas 15.11-24


Intr. Hoje, e nos próximos domingos, voltaremos nossos olhos e coração para está parábola. Vamos mergulhar nestes versículos, de 11 a 32, e conversar sobre 5 temas: Pecado, Arrependimento, Graça, Alegria e Filiação. Todos os temas apontam para o tema central destas mensagens: A Graça Radical.

Hoje o nosso tema é: “O Deus de toda graça”, vamos atentar para o “pai” dos dois filhos desta tão conhecida, mas tão pouco compreendida parábola.

Transição: um olhar mais profundo no contexto sócio-histórico que envolve a parábola...

Perceba as ações do filho mais novo

1. O grito de independência: “Pai, dá-me a parte que me cabe dos bens...” (Lucas 15:12). Independência ou morte! Já não mais agüentava as restrições impostas pelo regimento interno do lar, da sinagoga e da aldeia.. Usando as palavras de Jack Winter: “Pai, não posso esperar o senhor morrer. Dá-me o que por direito me pertence, para eu ir embora e cuidar da minha vida”2.

2. A temporada de caça à felicidade: “... lá dissipou todos os bens, vivendo dissolutamente” (Lucas 15:13). O termo pródigo significa esbanjador. E aqui nos deparamos com alguém que para atingir o êxtase não perdia uma festa. Os prazeres foram transitórios, mas suficientes para fazê-lo gastar tudo que tinha (e que era herança, portanto, o que era do pai e foi dado por este).

3. A decisão de continuar longe da casa do pai: “Então ele foi e se agregou a um dos cidadãos daquela terra...” (Lucas 15:15). No lugar do pródigo, você admitiria publicamente que errou ao rebelar-se contra as ordens do pai? Por que o rapaz não arrumou as trouxas e retornou imediatamente à casa paterna? Porque nossa rebelião pode até ser pública, mas os infortúnios que colhemos nos envergonham e tentamos ocultá-los de outros. O que ele fez? Saiu a procura de uma solução criativa; isto é, qualquer emprego que o mantivesse longe da casa paterna. Não demorou, porém, e descobriu aquilo que não queria admitir:

a) Continuava com fome (Lucas 15:16 e 17).

b) Para o fazendeiro aos porcos eram mais importantes do que ele

c) Seus esforços só pioraram o seu quadro: ele que já estava no fundo do poço, agora está no fundo do chiqueiro.

d) Ele descobriu, reconheceu, admitiu que precisava do pai.

Atente para as ações do Pai:

Atentemos para três ações do pai, nas quais injetou graça e amor incondicionais na vida desregrada do pródigo:

O pai amava o filho o suficiente para permitir-lhe que saísse de casa.

O pai amoroso não o deserdou e nem retirou a sua mesada. Poderia até condená-lo à morte, porém, infundiu perdão e amor incondicional concedendo ao rebelde o direito à vida. Ele amava tanto que não impediu a saída do filho com tudo o que não tinha direito.

O pai amava o filho tão profundamente que esperava todos os dias que ele voltasse para casa.

Queria ser o primeiro a dar-lhe as boas vindas e, desta forma, remover os possíveis obstáculos neste retorno à casa do pai. Georges Chevrot auxilia-nos na compreensão deste ponto-de-vista: “Que teria acontecido se naquela tarde, cansado de esperar, o pai não tivesse subido ao terraço? Ou se o filho pródigo, à entrada da casa, não tivesse encontrado senão um servo que o enxotasse brutalmente, tomando-o por um vagabundo? Ou – nem é bom pensar nisso – se tivesse topado com irmão mais velho”? Nada disso aconteceu. O pai saudoso aguardava continuamente o retorno do filho.

O pai amava tanto o seu filho, que quando este regressou ao lar ele não condenou pelos seus erros, mas perdoou-lhe, e celebrou a volta com um grande banquete.

Bailey acentua que “o que o pai faz nesta cena deve ser entendido como uma série de atos dramáticos calculados para proteger o rapaz da hostilidade da aldeia, e restaurá-lo à comunhão da comunidade”.

Quais foram estas ações dramatizadas?

1) A corrida da compaixão: O pai não conseguiu esperar a chegada daquele morto de fome. Esqueceu a sua idade, menosprezou os costumes dos nobres orientais e saiu correndo para reconquistá-lo publicamente.

2) Os abraços e os beijos da reconciliação: A platéia ficou boquiaberta: o menino ainda cheirava a porcos, e o pai o beijou repetidamente no rosto em um gesto público de reconciliação e perdão (Gênesis 33:4). Se não o beijasse no rosto certamente o filho beijaria suas mãos e seus pés. Ali o pródigo continuou a mudar de idéia acerca do pai.

3) O banquete de recepção: “O pecador sempre fica surpreso quando o castigo é suspenso”7. Preparado psicologicamente até para ser enxotado da aldeia e do lar, o pródigo foi surpreendido: “ele ainda me trata como filho”; contudo, a melhor roupa, o melhor sapato, o anel de filiação, o novilho cevado e o banquete foram apenas amostras da alegria que inundou o coração pai amoroso pela mudança de opinião do filho rebelde.

Philip Yancey: “O mundo pode fazer quase tudo tão bem ou melhor do que a igreja. Você não precisa ser cristão para construir casas, alimentar os famintos ou curar os enfermos. Há apenas uma coisa que o mundo não pode fazer. Ele não pode oferecer graça”

Conclusão

Quero terminar esta mensagem com um olhar para o universo ao nosso redor... Neste lugar onde às vezes podemos nos sentir sozinhos, assim como o filho prodigo em seu momento de autoconsciência...

Contemplando a ordem da Terra, do sistema solar e do universo estelar, cientistas e estudiosos concluíram que o Grande Projetista não deixou nada para o acaso.

A inclinação da Terra, por exemplo, de 23 graus, produz as nossas estações. Os cientistas dizem-nos que, se a Terra não tivesse a exata inclinação que tem, os vapores dos oceanos mover-se-iam para norte e sul, cobrindo os continentes de gelo.

Se a Lua estivesse a 80 mil quilômetros da Terra, em vez de 320 mil, as marés seriam tão enormes que todos os continentes seriam submergidos pela água — até mesmo as montanhas seriam afetadas pela erosão.

Se a crosta terrestre fosse apenas três metros mais grossa, não haveria oxigênio, e sem ele toda a vida animal morreria.

Se os oceanos fossem uns poucos metros mais profundos, o dióxido de carbono e o oxigênio teriam sido absorvidos e nenhuma vida vegetal poderia existir.

O peso da Terra foi estimado em seis sextilhões de toneladas (isso é um 6 seguido de 21 zeros). Ela tem, ainda assim, um equilíbrio perfeito e gira com facilidade no seu eixo. Ela revolve diariamente à razão de mais de 1.600 quilômetros por hora ou quarenta mil quilômetros por dia. Num ano isso dá mais de catorze milhões de quilômetros. Considerando o extraordinário peso de seis sextilhões de toneladas girando a essa fantástica velocidade ao redor do seu eixo invisível, as palavras de Jó 26:7 assumem significado sem paralelo: "Ele ...faz pairar a terra sobre o nada".

A Terra revolve em sua própria órbita ao redor do Sol, percorrendo a cada ano o longo circuito elíptico de 965 milhões de quilômetros — o que significa que viajamos nessa órbita à velocidade de trinta quilômetros por segundo, ou 1.800 quilômetros por hora.

Jó nos convida ainda a meditar sobre "as maravilhas de Deus" (37:14). Considere o Sol. Cada metro quadrado da superfície do Sol emite constantemente um nível de energia de 130 mil cavalos-força (isto é, aproximadamente 450 motores de oito cilindros) em chamas que estão sendo produzidas por uma fonte de energia muito mais potente que carvão.

Os nove grandes planetas no nosso sistema solar distam do Sol entre 57 milhões e cerca de cinco trilhões e oitocentos bilhões de quilômetros; cada um deles gira ao redor do Sol com absoluta precisão, com órbitas que variam entre 88 dias para Mercúrio e 248 anos para Plutão.

Ainda assim o Sol é apenas uma estrela menor nos 100 bilhões de astros que compõem a nossa galáxia, a Via Láctea. Se você fosse capaz de enxergar bem o suficiente, uma moeda de dez centavos estendida à distância de um braço ocultaria quinze milhões de estrelas.

Quando tentamos apreender mentalmente as quase incontáveis estrelas e outros corpos celestes encontrados na nossa Via Láctea, apenas, somos levados a ecoar o hino de louvor de Isaías ao Todo-Poderoso Criador: "Levantai ao alto os olhos e vede. Quem criou estas coisas? Aquele que faz sair o seu exército de estrelas, todas bem contadas, as quais ele chama pelo nome; por ser ele grande em força, e forte em poder, nem uma só vem a faltar" (40:26).

A criação revela tanto poder que desconcerta nossa mente e deixa-nos sem palavras. Somos enamorados e encantados pelo poder de Deus. Gaguejamos e hesitamos diante da santidade de Deus. Trememos diante da majestade de Deus... e apesar disso mostramo-nos melindrosos e ressabiados diante do amor de Deus.

Fico estupefato diante da difundida recusa, em nossas terras, em pensar-se grande sobre um Deus amoroso.

Temos de sair para um deserto de algum tipo (seu quintal serve) e adentrar uma experiência pessoal com o assombroso amor de Deus. Então poderemos concordar com conhecimento de causa, com o místico inglês Julián de Norwich: "A maior honra que podemos dar ao Deus Todo-Poderoso é viver com alegria pelo conhecimento do seu amor". (Extraído do livro “Evangelho Matrapilho”, de Brennam Manning, Ed. Mundo Cristão)

Sim, o Deus gracioso encarnado em Jesus Cristo nos ama, Ele é o Deus de TODA GRAÇA!

Rev. Ézio Lima
Esboço da mensagem pregada no culto do dia 26.04.2009

segunda-feira, abril 20, 2009

LIXO AUDÍVEL

Rev. Eugene Peterson
SALMOS 40:6
Sacrifício e oferta não pediste, mas abriste os meus ouvidos; holocaustos e ofertas pelo pecado não exigiste

Imagine uma cabeça humana sem orelhas. Uma pessoa estúpida. Olhos, nariz e boca, mas sem orelhas. Onde se encontram normalmente as orelhas há apenas uma superfície lisa, impenetrável, osso granítico. Deus fala. Nenhuma resposta. A metáfora ocorre no contexto de uma atividade religiosa confusa, surda à voz de Deus: “sacrifício e ofertas tu não desejas... ofertas queimadas e ofertas pelo pecado” (Salmo 40:6). Como essas pessoas sabem sobre essas ofertas e como as fazem? Elas haviam lido as prescrições em Êxodo e Levítico e seguido instruções. Elas haviam se tornado religiosas. Seus olhos leram as palavras na página da Torá e rituais foram criados. Como aconteceu de elas terem perdido a mensagem “não solicitada”? Deve haver algo mais envolvido do que somente seguir orientações sobre animais imaculados, um altar de pedra e um fogo sacrificial. E há: Deus está falando e deve ser escutado. Mas qual o proveito em haver um Deus que fala sem ouvidos humanos que ouçam? Assim, Deus apanha uma enxada e uma pá e cava no granito cranial, abrindo uma passagem que dará acesso às profundezas interiores, à mente e ao coração. Ou talvez não devamos imaginar uma extensão estável da cabeça, mas algo como poços que foram entupidos por lixo: ruído cultural, fofocas dispensáveis, conversas inúteis. Nossos ouvidos estão tão obstruídos que não conseguimos ouvir Deus falar. Deus, como Isaque que cavou novamente os poços que os filisteus haviam enchido, recava os ouvidos repletos de lixo audível.

Ser religioso, agir piedosamente...
Não é isso o que você está pedindo.
Você abriu meus ouvidos
De modo que eu possa escutar.
Salmo 40:6

sexta-feira, abril 10, 2009

Por que Cristo morreu na Cruz? Marcos 15.21-47


Todas as religiões e ideologias têm seu símbolo visual, que exemplifica um aspecto importante de sua história ou crenças.

As ideologias seculares deste século também possuem seus sinais que são universalmente reconhecíveis. O martelo e a foice do marxismo, adotados em 1917 pelo governo soviético e retirados de um quadro belga do século dezenove, representam a indústria e a agri­cultura.

Da suástica, por outro lado, há vestígios de 6.000 anos atrás. As pontas se dobram para a direita, simbolizando ou o movimento do sol no céu, ou o ciclo das quatro estações, ou o processo de criatividade e prosperidade ("svasti" em sânscrito significa "bem-estar"). No início deste século, porém, alguns alemães adotaram a suástica como símbolo da raça ariana. Então Hitler se apossou dela e ela passou a representar a sinistra intolerância racial nazista.

O Cristianismo, portanto, não é exceção quanto a possuir um símbolo visual. Todavia, a cruz não foi o primeiro. Por causa das selvagens acusações dirigidas contra os cristãos, e da perseguição a que estes foram submetidos, eles tiveram de "ser muito circunspectos e evitar ostentar sua religião. Assim a cruz, agora símbolo universal do Cristianismo, a princípio foi evitada, não somente por causa da sua associação direta com Cristo, mas também em virtude de sua associação vergonhosa com a execução de um criminoso comum." De modo que nas paredes e tetos das catacumbas (sepulcros subterrâneos na periferia de Roma, onde os cristãos perseguidos provavelmente se esconderam), os primeiros motivos cristãos parecem ter sido ou pinturas evasivas de um pavão (que se dizia simbolizar a imortalidade), uma pomba, o louro dos atletas ou, em particular, de um peixe. Somente os iniciados saberiam, e ninguém mais poderia adivinhar que ichthys ("peixe") era o acrônimo de Iesus Christos Theou Huios Soter ("Jesus Cristo Filho de Deus Salvador"). Mas o peixe não permaneceu como símbolo cristão, sem dúvida porque a associação entre Jesus e o peixe era meramente acronímica (uma disposição fortuita de letras) e não possuía nenhuma importância visual.

Um símbolo cristão universalmente aceito teria, obviamente, de falar a respeito de Jesus Cristo, mas as possibilidades eram enormes:

“Os cristãos podiam ter escolhido a manjedoura em que o menino Jesus foi colocado, ou o banco de carpinteiro em que ele trabalhou durante sua juventude em Nazaré, dignificando o trabalho manual, ou o barco do qual ele ensinava as multidões na Galiléia, ou a toalha que ele usou ao lavar os pés dos apóstolos, a qual teria falado de seu espírito de humilde serviço. Também havia a pedra que, tendo sido removida da entrada do túmulo de José, teria proclamado a ressurreição. Outras possibilidades eram o trono, símbolo de soberania divina, o qual João, em sua visão, viu que Jesus partilhava, ou a pomba, símbolo do Espírito Santo enviado do céu no dia do Pentecoste. Qualquer destes sete símbolos teria sido apropriado para indicar um aspecto do ministério do Senhor”.

Mas, pelo contrário, o símbolo escolhido foi uma simples cruz. Seu formato já simbolizavam, desde a remota antigüidade, os eixos entre o céu e a terra. Mas a escolha dos cristãos possuía uma explicação mais específica. Desejavam comemorar, como centro da compreensão que tinham de Jesus, não o seu nascimento, nem o seu ensino nem o seu serviço, nem a sua ressurreição nem o seu reino, nem a sua dádiva do Espírito, mas a sua morte e a sua crucificação.

A crucificação

Os gregos e os romanos se apossaram da crucificação que, aparentemente, fora inventada pelos "bárbaros" que viviam à margem do mundo conhecido. E ela, com toda a probabilidade, o método mais cruel de execução jamais praticado, pois deliberadamente atrasa a morte até que a máxima tortura seja infligida. Antes de morrer, a vítima podia sofrer durante dias. Ao adotarem a crucificação, os romanos a reservaram para assassinos, rebeldes, ladrões, contanto que também fossem escravos, estrangeiros ou pessoas sem posição legal ou social. Os judeus, portanto, se enraiveceram quando o general romano Varus crucificou 2.000 dos seus compatriotas em 4 a.C, e quando, durante o cerco de Jerusalém, o general Tito crucificou tantos fugitivos da cidade que não se podia encontrar "espaço. . . para as cruzes, nem cruzes para os corpos".

Os cidadãos romanos, a não ser em casos extremos de traição, estavam isentos de crucificação. Cícero, num de seus discursos, condenou-a como crudelissimum taeterrimumque supplicium, "um castigo muitíssimo cruel e repugnante". Um pouco mais tarde ele declarou: "Atar um cidadão romano é crime, chicoteá-lo é abominação, matá-lo é quase um ato de assassínio: crucificá-lo é — o quê? Não há palavras que possam descrever ato tão horrível".

Se os romanos viam com horror a crucificação, da mesma forma viam-na os judeus, embora por motivos diferentes. Os judeus não faziam distinção entre o "madeiro" e a "cruz", entre o enforcamento e a crucificação. Eles, portanto, automaticamente aplicavam aos cri­minosos crucificados a terrível declaração da lei de que "o que for pendurado no madeiro é maldito de Deus" (Deuteronômio 21:23). Eles não podiam crer que o Messias de Deus morreria sob a maldição divina, pendurado num madeiro.

O fato de a cruz se tornar um símbolo cristão, e que os cristãos, teimosamente, se recusaram, apesar do ridículo, a descartá-lo em favor de alguma coisa menos ofensiva, só pode ter uma explicação. Significa que a centralidade da cruz teve origem na mente do próprio Jesus. Foi por lealdade a ele que seus seguidores se apegaram com tanta tenacidade a esse sinal.

Por que a Cruz é central?

Marcos deixa-nos claro isso:

“Jesus então começou a ensinar-lhes que era necessário que o Filho do homem sofresse muitas coisas, fosse rejeitado pelos anciãos, pelos principais sacerdotes e pelos escribas, fosse morto e que depois de três dias ressuscitasse. E isto ele expunha claramente (Marcos 8:31-32).

Tendo esta evidência, suprida pelos escritores dos Evangelhos, o que podemos dizer sobre a perspectiva de Jesus acerca da sua própria morte? Além de qualquer dúvida, ele sabia que ela ia acontecermas no sentido em que ele teria uma morte violenta, prematura e, contudo, intencional. Mais do que isso, ele apresenta três motivos interligados para sua inevitabilidade. — não no sentido em que todos nós sabemos que morreremos um dia,

Primeiro, ele sabia que ia morrer por causa da hostilidade dos líderes nacionais judaicos. A atitude para com a lei em geral, e para com o Sábado em particular, os enraivecia. Quando ele insistiu em curar numa sinagoga, no dia de Sábado, um homem que tinha a mão ressequida, Marcos nos diz que "retirando-se os fariseus, conspiravam logo com os herodianos, contra ele, em como lhe tirariam a vida" (3:6).

Segundo, ele sabia que ia morrer porque era isto o que estava escrito nas Escrituras acerca do Messias. "Pois o Filho do homem vai, como está escrito a seu respeito" (Marcos 14:21

"Porventura não convinha que o Cristo padecesse e entrasse na sua glória? E, começando por Moisés, discorrendo por todos os profetas, expunha-lhes o que a seu respeito constava em todas as Escrituras" (Lucas 24:25-26; cf. versículos 44-47).

A oposição da hierarquia e as predições da Escritura, contudo, em si mesmas não explicam a inevitabilidade da morte de Jesus. O terceiro e mais importante motivo pelo qual ele sabia que ia morrer era sua própria escolha deliberada. Ele decidiu cumprir o que estava escrito acerca do Messias, por mais doloroso que fosse. Essa atitude não era nem fatalismo nem complexo de mártir. Simplesmente ele cria que a Escritura do Antigo Testamento era a revelação do Pai e que estava totalmente decidido a realizar a vontade do Pai e terminar a obra do Pai. Além disso, seu sofrimento e morte não seriam sem propósito. Ele tinha vindo "buscar e salvar o perdido" (Lucas 19:10). Era pela salvação dos pecadores que ele morreria, dando a sua vida em resgate por eles (Marcos 10:45). Assim, ele tomou a firme decisão de ir para Jerusalém. Nada o deteria nem o desviaria do seu objetivo. Daí o repetido "deve" quando ele fala da sua morte. O Filho do homem deve sofrer muitas coisas e ser rejeitado. Tudo o que foi escrito a respeito dele deve ser cumprido.

De forma que, embora ele soubesse que devia morrer, não morreria por ser uma vítima indefesa das forças do mal dispostas contra ele, nem de um destino inflexível contra ele decretado, mas porque de livre vontade abraçou o propósito do Pai com o fim de salvar os pecadores, como a Escritura havia revelado.

Como é que os cristãos podem encarar tal ridículo sem mudar de posição? Por que nos apegamos à velha e rude cruz, e insistimos em sua centralidade, recusando-nos a deixar que ela seja empurrada para a periferia de nossa mensagem? Por que devemos proclamar o que é escandaloso, e gloriarmo-nos no que é vergonhoso? A resposta jaz na simples palavra "integridade". A integridade cristã consiste par­cialmente numa resolução de desmascarar as caricaturas, mas prin­cipalmente na lealdade pessoal a Jesus, em cuja mente a cruz salvadora ocupava o centro. Deveras, todos os leitores que se apro­ximaram, sem preconceito, das Escrituras, parecem ter chegado à mesma conclusão. Eis um exemplo extraído deste século.

P. T. Forsyth, congregacionalista inglês, escreveu em A Crucialidade da Cruz (1909):

Cristo é para nós o que o é a cruz. Tudo o que Cristo foi no céu ou na terra foi colocado no que ele fez aí. . . Cristo, repito, é para nós justamente o que a cruz o é. A pessoa não pode compreender a Cristo até que compreenda a sua cruz.

Emil Brunner: “A cruz é o símbolo da fé cristã, da igreja cristã, da revelação de Deus em Jesus Cristo. . . Toda a luta da Reforma pela sola fide, o soli deo gloria, não passou de uma luta pela in­terpretação correta da cruz. Aquele que compreende cor­retamente a cruz — e esta é a opinião dos reformadores — compreende a Bíblia, compreende a Jesus Cristo”.

Minha citação final é extraída do erudito anglicano, bispo Stephen Neill:

“Na teologia histórica cristã a morte de Cristo é o ponto central da história; para aí todas as estradas do passado convergem; e daí saem todas as estradas do futuro”

Por que Jesus Morreu?

a) Jesus morreu para que pudéssemos viver por meio dEle, que é salvação;

“Foi assim que Deus mostrou o seu amor por nós: ele mandou o seu único Filho ao mundo para que pudéssemos ter vida por meio dele. E o amor é isto: não fomos nós que amamos a Deus, mas foi ele que nos amou e mandou o seu Filho para que, por meio dele, os nossos pecados fossem perdoados”. (1 João 4.9,10).

“Dificilmente alguém aceitaria morrer por uma pessoa que obedece às leis. Pode ser que alguém tenha coragem para morrer por uma pessoa boa. Mas Deus nos mostrou o quanto nos ama: Cristo morreu por nós quando ainda vivíamos no pecado. E, agora que fomos aceitos por Deus por meio da morte de Cristo na cruz, é mais certo ainda que ficaremos livres, por meio dele, do castigo de Deus. Nós éramos inimigos de Deus, mas ele nos tornou seus amigos por meio da morte do seu Filho” (Romanos 5.7-10)

b) Jesus morreu para que possamos viver por Ele, que é a entrega integral do que somos;

“Porque somos dominados pelo amor que Cristo tem por nós, pois reconhecemos que um homem, Jesus Cristo, morreu por todos, o que quer dizer que todos tomam parte na sua morte. Ele morreu por todos para que os que vivem não vivam mais para si mesmos, mas vivam para aquele que morreu e foi ressuscitado para a salvação deles”. (2 Coríntios 5.14,15).

c) Jesus morreu para podermos viver com Ele, que é a glorificação

“Deus não nos escolheu para sofrermos o castigo da sua ira, mas para nos dar a salvação por meio do nosso Senhor Jesus Cristo, que morreu por nós para podermos viver com ele, tanto se estivermos vivos como se estivermos mortos quando ele vier”. (I Ts 5.9-10).

Rev. Ézio Lima