quarta-feira, novembro 21, 2012


Gente não é ostra

A ostra tem o seu esqueleto na superfície e o sistema nervoso no interior do corpo. Pois a concha é, na realidade, o seu esqueleto. A ostra gruda a uma rocha e ali fica. A vida passa por cima... E assim a sua sensibilidade está protegida. Mas o ser humano é diferente: o seu esqueleto está no interior do corpo e os nervos na superfície. Por isso, a nossa sensibilidade é assaz desenvolvida. A sensibilidade funciona como um radar. Ela acusa e registra tudo que pode ferir-nos e, assim, causar-nos algum dano.
Muitas vezes, em nossos relacionamentos, não levamos em consideração que gente não é ostra – falamos ou agimos sem considerar a sensibilidade de nosso próximo. Isso acontece com doutores e analfabetos, com santos e pecadores. E grandes servos de Deus têm caído nessa armadilha. O que aconteceu com Paulo e Barnabé deve ser uma advertência para todos nós. “Alguns dias depois, disse Paulo a Barnabé: Voltemos, agora, para visitar os irmãos por todas as cidades nas quais anunciamos a palavra do Senhor, para ver como passam. E Barnabé queria levar também a João, chamado Marcos. Mas Paulo não achava justo levarem aquele que se afastara desde a Panfília, não os acompanhando no trabalho. Houve entre eles tal desavença, que vieram a separar-se. Então, Barnabé, levando consigo a Marcos, navegou para Chipre. Mas Paulo, tendo escolhido a Silas, partiu encomendado pelos irmãos à graça do Senhor. E passou pela Síria e Cilícia, confirmando as igrejas” (Atos 15.36-41).
É provável que Paulo e Barnabé tenham usado palavras duras, talvez até violentas, um contra o outro, pois, pelo menos o que consta na Bíblia, nunca mais trabalharam juntos.
Desse incidente podemos tirar várias lições:
a) Precisamos ter cuidado com nossas palavras para que elas não firam a sensibilidade das pessoas. Lembremo-nos do sábio conselho de Salomão: “A resposta branda desvia o furor, mas a palavra dura suscita a ira” (Provérbios 15.1).
b) Uma outra lição é que não podemos afirmar, com absoluta exatidão, que a posição assumida por nós está correta. Paulo não queria a companhia de Marcos porque julgava que ele não tinha a firmeza e a tenacidade necessárias para a obra missionária. Barnabé queria levar o primo (ver Colossenses 4.10) porque entendia que era correto dar-lhe uma segunda chance. Paulo e Barnabé poderiam citar palavras de Jesus para apoiar a decisão que tomaram. Paulo poderia lembrar que “Ninguém que, tendo posto a mão no arado, olha para trás é apto para o reino de Deus” (Lucas 9.62). E Barnabé poderia responder que o perdão nunca pode ser negado, ainda que seja necessário perdoar “setenta vezes sete” (Mateus 18.22). Mais tarde Paulo readmitiu Marcos em sua companhia, mas naquele momento era muito difícil constatar qual dos dois estava certo.
Se entre o que eu penso sobre determinada coisa e o outro eu não conseguir estender a ponte do amor, torno-me uma parede que bloqueia a relação. A parede da insensibilidade, do desrespeito, da maledicência, da indiferença e da mentira, é o mecanismo que me impede de ver outro sob a ótica da graça de Deus.
 Paulo e Barnabé foram dois gigantes na vida espiritual, mas – infelizmente – pelo menos em uma ocasião eles não perceberam que gente não é ostra.

Rev. Ézio Martins de Lima

terça-feira, novembro 13, 2012


é... ainda existe amor!

talvez abandonado em um canto qualquer

talvez desconhecido na página de um livro antigo

...abandonado numa velha estante pouco visitada

mas o amor, sim,... o amor existe

e alguém pode até suspirar...

esperando o amor chegar....

e talvez ele saia de um lugar não esperado...

de uma página antes não lida... e surpreenda

e seja amor.. e simplifique tudo

e seja amor... e mude tudo

e seja amor... e dê sentido a tudo

posto que o amor é

e não precisa ser senão amar  
 
(Ézio Lima)

sexta-feira, setembro 14, 2012

A vocação de ser igreja



Rejeitei a igreja durante algum tempo porque encontrei bem pouca graça ali. Voltei porque não descobri graça em nenhum lugar.
(Philip Yancey)
O chamado para viver seguindo a Cristo (ser discípulo) é acompanhado do chamado para viver na comunhão dos discípulos. A salvação é individual (isto é, cada um é chamado individualmente por Cristo), mas a vida cristã se desenvolve/cresce no contexto da comunidade dos discípulos, a igreja, o povo de Deus. A vocação para ser de Cristo é sempre acompanhada pela vocação de ser igreja.
Relacionar-se, contudo, não é fácil. Não é preciso ensinar uma criança a ser egoísta/individualista, mas é preciso disciplina para provocar o convívio harmônico e a partilha. Sem a graça de Deus e o fruto do Espírito Santo continuamos repetindo este modelo por toda a vida...
A Bíblia nos fala que igreja (a comunhão dos vocacionados), não é nem instituição, nem o prédio (templo), nem uma organização (empreendimento, empresa ou comércio de fé). Igreja é organismo, é gente. Gente que foi chamada por Cristo para ser o “seu povo”, “a sua família”, “o seu corpo”, “o seu rebanho”. Desta forma, uma comunidade cristã nada mais é do que o ajuntamento daqueles que, conscientes de suas enfermidades físicas, emocionais e espirituais, se rendem ao amor de Deus oferecido na cruz, crendo que Jesus é o único capaz de, ao longo de suas histórias, resgatar suas vidas e suas relações. Em outras palavras, a igreja é uma comunidade de pessoas em processo de cura, mas ainda enfermas; santificadas, sim, mas ainda enfrentando diariamente a tentação de “cair em pecado”. Por isso, a única forma de viver uma experiência comunitária rica e saudável ao longo da caminhada cristã é fazendo uso da graça.  Somente a graça nos capacita a olhar para o outro (e para nós mesmos) sob a perspectiva de Deus.
A procura, portanto, por uma igreja perfeita, sem problemas e pronta é inútil.  A busca precisa ser outra. Nesta comunidade que se reúne em nome de Cristo, a Palavra de Deus é estudada (e pregada) com fidelidade? A verdade do evangelho tem provocado o desejo de amar e servir a Deus e ao próximo? Deus é realmente o “centro”, “a atenção”? Seus “líderes” estão se autopromovendo ou Deus é que tem sido glorificado? Os recursos financeiros estão servindo para enriquecimento de “pessoas” ou estão servindo ao propósito da propagação do Evangelho? Há prestação de contas destes recursos? Cristo é realmente o único salvador ou tem alguma outra coisa (qualquer que seja) quem tem sido colocada ao seu lado (ou acima dEle)?
Uma forma de viver a religião é não se comprometer com coisa alguma e com ninguém, fechar-se num egoísmo de vida em que tudo se resume ao “próprio umbigo”, utilizar-se da religião para a satisfação dos desejos e ambições pessoais e tentar aplacar a culpa com rituais de sacrifício. Mas os cristãos, impactados pela verdade do Evangelho de Jesus Cristo, habitados e cheios do Espírito Santo, sabem que só há um jeito de viver a vida cristã: é não evitar o desafio de crescer e contribuir para o crescimento no espaço que a graça propicia, na vocação de ser igreja!

No amor dAquele que nos amou primeiro,
Ézio Lima, rev.

quarta-feira, junho 20, 2012

Sabedoria para Conviver


Quando um grupo de cristãos forma uma igreja, tudo o que pode acontecer de errado cedo ou tarde acontecerá. Os não crentes, que observam de fora, concluem que não há nada de especial na religião, a não ser talvez um negócio – e um negócio desonesto. Quem vive na comunidade vê a mesma situação de modo diferente. Assim como o hospital recebe os enfermos sob um mesmo teto e os trata como tais, a igreja recebe pecadores. Muitos não estão internados em hospitais, mas são tão doentes quanto os que estão. A doença deles ou não foi diagnosticada ou está sendo acobertada. O mesmo acontece com os pecadores fora da igreja.
Logo, as igrejas cristãs não são, via de regra, comunidades modelo de bom comportamento. Antes, são lugares em que o mau comportamento humano é denunciado, combatido e tratado.
A carta de Tiago mostra um dos primeiros pastores da igreja executando habilidosamente a tarefa de confrontar, diagnosticar e lidar com crenças e comportamentos incorretos surgidos nas congregações confiadas a eles. Percebe-se aqui uma sabedoria profunda e viva, além de rara e essencial. Sabedoria não é primariamente conhecer a verdade, ainda que a inclua, mas é a habilidade de viver. Pois que vantagem há na verdade, se não sabemos como vivê-la? Quão boa é uma intenção, se não conseguimos sustentá-la?
De acordo com a tradição da Igreja, Tiago tinha o apelido de “joelho de camelo”, por causa dos calos grossos que se formaram em seus joelhos, depois de muitos anos de oração constante. A oração é fundamental para a sabedoria. A oração é sempre fundamental para a sabedoria.
(Transcrito de “A Mensagem - Bíblia em Linguagem Contemporânea”, de Eugene H. Peterson)